FILME: Andrade, Joaquim Pedro de(Diretor). Macunaíma. 108 min.1969.
A produção cinematográfica dirigida por Joaquim Pedro de Andrade é baseada na obra prima de Mário de Andrade, escrita em 1928, Macunaíma. Não cabe aqui fazer uma apreciação minuciosamente estética da película, outrossim resumir os elementos retirados da obra escrita e que são realçados no filme.
O que é executado, como comumente acontece, é uma supressão de partes do livro, como recurso de adaptação. Também há uma outra modificação na característica: a incrível mediação de feitiços e magias para a concatenação dos acontecimentos com o herói, dá lugar à maior lógica nas ações, no filme. Outra perca natural é com relação a linguagem, como Macunaíma é um texto difícil de ser lido pela alta carga de vocábulos de línguas indígenas e com construções frasais complexas, ocorre a simplificação desses elementos no filme. De todo modo, não se tira as intenções da obra de Mário de Andrade. Faz melhor, a valoriza, já que consegue estabelecer a obra para o tempo do filme, que é a década de 1960, através do uso de cores vivas e linguagem do cinema da época, por exemplo. Ainda nesse tópico, vale lembrar que Joaquim Pedro de Andrade conta (algo que não está no livro) sobre a origem das mirabolantes histórias do 'nosso herói': foram histórias de um antropólogo alemão que estudou indígenas na América do Sul, captando as histórias daqueles povos. Sendo esse um importante material para Mário de Andrade compôr o trabalho. É bom lembrar que o escritor em questão é uma das peças chaves do Movimento Modernista no Brasil, cujo expoente foi a Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo. Significa que a proposta de Mário de Andrade nessa obra era apresentar as raízes culturais do Brasil, sem estrangeirismos, sem importação cultural, isto é, valorizando o que se chamava da 'nossa cultura nacional', havendo uma revalorização do índio, por exemplo; ou da idéia de que certos elementos são universais na cultura brasileira e que uniriam o país, cabendo falar em a Cultura brasileira.
Macunaíma é a epopéia [ou novela pitoresca] do [anti-] herói brasileiro. A comicidade da história contribui para ressaltar a característica de um anti-herói, isso pelo fato de que Macunaíma fugir à regra dos padrões para um herói. Nasce no mato, onde sua família era composta por: sua mãe, seus irmãos Jiguê – negro, mais novo e guerreiro e Maanape – branco, mais velho e feiticeiro, além da mulher de Jiguê. Macunaíma, além de muito feio, segundo sua mãe, era muito preguiçoso, e muito esperto também. Essa esperteza, quase como uma malandragem de pensamento rápido para seus objetivos, é algo valorizado ao longo do filme como uma inteligência genuína.
Para falar, Macunaíma demorou mais de seis anos, e quando abriu a boca foi para dizer que estava com preguiça. Mas havia duas coisas que ele era esperto, para “brincar” e “ganhar vintém”. “Brincar”, não é o que significa 'ao pé da letra', senão o próprio sexo, a transa – mas não por ele próprio, algo que se compõe de uma brincadeira mas com toda a conotação apaixonada; e “ganhar vintém” apresentava a gana por ter dinheiro, tanto que fazia de tudo para isso. Ora, sobre a questão do anti-herói, Leonardinho Pataca, em Memórias de um Sargento de Milícias[1854], de Manuel Antônio de Almeida, já o era. Mas aqui o anti-herói é apresentado com outros olhares, há a valorização daquele 'homem cultural'.
Após terem vivido por um tempo no mato, passarem por certas dificuldades e tendo a matriarca morrido, ele e os irmãos decidem ir para a cidade. No caminho um fato inusitado, uma fonte propicia o embranquecimento de Macunaíma, já o irmão Jiguê, que chega um pouco depois, só consegue tempo para molhar os pés e as mãos. Estava aí uma paródia com referência ao paradigma racial no Brasil.
A chegada na cidade é um impacto. São Paulo, naquele época[mesmo o livro não sendo datado, mas era como se fosse contemporâneo ao autor] já era uma cidade moderna ou em progressivo desenvolvimento – carros, asfalto, propaganda e muita máquina. Isso foi transpassado em uma frase-crítica: “...Macunaíma começou a ver que os homens é que eram máquinas, e as máquinas faziam-se homens....”. Agora, não quer dizer que Mário de Andrade fosse contrário às modernizações, mas sim como isso se impõe no Brasil – dependente do estrangeiro, aí estava o problema. Pois o foco do autor é mostrar que o selvagem não era o atraso, mas sim a diferenciação do Brasil, era o nosso traço de originalidade. Então o moderno deveria acontecer, sem destruir aquilo e sem ser mera importação.
O herói acaba ficando apaixonado por uma 'amazonas'. Diferente do que faz com todos os homens, Ci(a amazonas) não mata Macunaíma depois de ter o que lhe interessa. A vontade incessante de Macunaíma 'brincar', a conquista. Ela tem algo especial que carrega consigo: uma pedra de Muiraquitã. E essa pedra é a responsável por todo o sucesso da amazonas nos seus roubos a banco, pois, segundo Ci, enquanto ela estiver com a pedra, nenhum mal lhe acontece. Nessa trama, há três elementos importantes que se pode apontar: magia(algo que enreda toda a história, sobretudo no livro, como comentou-se acima), importância das paixões e a gula. Esse último elemento, é até melhor evidenciado na relação com seus irmãos e sua mãe, ainda no mato; mas não deixa de ser algo que integra o elemento da luxúria, já que o excesso de sexo é constante, e a preguiça, sobretudo depois da 'brincadeira' também é imensa E, por fim, a magia, está refletida na pedra(o Muiraquitã), irá significar uma busca de Macunaíma, depois que Ci morre e ele busca obter o colar com a pedra.
A questão da amplidão da cultura brasileira e talvez algo maior em Mario de Andrade está nas constantes viagens de Macunaíma. Mesmo que o centro de sua fixação na cidade seja a em São Paulo, onde vai perseguir o seu objetivo de obter o muiraquitã. A sua briga se trava contra o gigante Venceslau Pietro Pietra, o “campeão da iniciativa privada...”, que no filme aparece como um falastrão italiano(no livro ele é peruano), personagem caricato e tirano, que acabou se valendo dos benefícios do muiraquitã. Então Macunaíma tenta a qualquer custo recuperar o muiraquitã, chegando a recorrer ao candomblé, em um terreiro no Rio de Janeiro, onde evoca “Exú” contra Venceslau Pietro Pietra. Só na ocasião de uma grande festa na mansão de Venceslau, é que, inteligentemente, o herói consegue matar o gigante e recuperar o muiraquitã. Aquela festa era uma verdadeira sessão de canibalismo entre pessoas da alta sociedade, onde havia um grande trono, onde estava o gigante, que acabou caindo em uma peripécia de Macunaíma.
Conseguindo o que mais queria, o muiraquitã, o 'nosso personagem' volta para a selva com seus irmãos e sua amante. Nessa volta não esqueceram de levar diversos eletrodomésticos – todos inúteis naquele rincão, sem eletricidade. Na tapera, que havia se transformado em maloca, por força da preguiça, que era imensa, e desse modo não contribuía para com seus irmãos nas tarefas, acaba ficando sozinho. E com muita preguiça.
Um papagaio vinha conversar com ele. Era o ouvinte das sagas que o herói contava, como dissertando o caminho de grandes conquistas – aí algo como um traço saudosista( interessante que esse é um elemento presente na cultura portuguesa, sobretudo na música). Macunaíma só foi despertar mesmo, quando viu que por muito tempo não 'brincava'. Foi tomar um banho no riacho, e viu Uiara na água. Ela era uma traiçoeira que com sua beleza conquista os homens e os fazem mergulhar para vê-la e depois os mata. E assim foi o final da história - tendo ao fundo a célebre música de Heitor Villa-Lobos: o verde das folhas que guardavam as 'vergonhas' do herói, na água do rio, são logo manchadas com o vermelho que sobe...
Nenhum comentário:
Postar um comentário