domingo, 30 de março de 2008

FICHAMENTO I - Antropologia Brasileira

Cunha, Euclides da. “A nossa vendéia” [1897] In: Euclides da Cunha (org. Walnice Nogueira Galvão), Col. Grandes Cientistas Sociais, pp. 76-84, São Paulo, Editora Ática, 1984.

Inicia situando o reduto de Canudos, assim como o tempo: “O relatório apresentado em 1888...sobre o transporte do meteorito de Bendegó...região do extremo norte da Bahia determinada pelo Vale do Ipiranga ou Vaza-Barris, rio em cuja margem se alevanta a povoação que os últimos acontecimentos tornaram histórica - Canudos”.(Pág. 76)

“...de vegetação escassa e deprimida, é, talvez mais do que a horda dos fanatizados sequazes de Antônio Conselheiro, o mais sério inimigo das forças republicanas”.(Pág. 76)

Além de fazer um perfil minucioso da geologia e geografia da região, traça a situação de penúria, condições terríveis de sobrevivência. “...e os galhos que morreram ficam por tal modo secos que em algumas espécies, basta o atrito de um sobre outro para produzir-se o fogo e o incêndio subseqüente de grandes áreas”.(Pág. 77).

“...armazenam-se os últimos recursos para a satisfação da sede e da fome ao viajante retardatário... ”.(Pág. 77)

Paradoxo da natureza: “...da maravilhosa exuberância à completa esterilidade. Este último aspecto, porém, infelizmente, parece predominar”.(Pág. 78)

“O homem e o solo justificam assim de algum modo, sob um ponto de vista geral, a aproximação histórica expressa no título deste artigo. Como na Vendéia o fanatismo religioso domina as suas almas ingênuas e simples é habilmente aproveitado pelos propagandistas do império”.(Pág. 79)

Euclides cita guerras imperialistas das potências européias como se fosse possível traçar paralelo com a luta ‘anti-monarquista’ travada pelo exército republicano brasileiro contra Canudos. Também fica surpreendido pela valentia do cangaceiro: “A Inglaterra enfrentando os zulus e os afgãs, a França em Madagascar e a Itália recentemente, às arrancadas com os abissínios, patenteiam-nos entretanto revezes notáveis de exércitos regulares aguerridos e bravos e subordinados a uma disciplina incoercível, ante os guerrilheiros inexpertos e atrevidos, assaltando-os em tumulto, desordenadamente e desaparecendo, intangíveis quase, num Dédalo impenetrável de emboscadas”.(Pág. 80)

“...hostes adversárias, de uma organização rudimentar, cuja força está na própria inconsistência, cujas vantagens estão na própria inferioridade e que desbaratados hoje, revivem amanhã, dos próprios destroços, como pólipos”.(Pág. 81)

Tese de que no sertão havia mar: “...pela feição caótica e acidental que lhe imprimiu o tumulto das águas nas épocas remotas em que a ação violenta destas, arrastando as camadas de grés que a revestiam, desnudou-a em muitos pontos, aprofundado-se em outros segundo a resistência variável das rochas até aos terrenos mais antigos”.(Pág. 81)

Morte de membros exército republicano por emboscadas: “Caindo inopinadamente numa emboscada, ao atravessarem uma garganta estreita ou um capão de mato, os batalhões sentem a morte rarear-lhes as fileiras e não vêem o inimigo – fulminando-os do recesso das brenhas ou abrigados pelos imensos blocos de granito que dão a certos trechos daquelas paragens uma feição pitoresca e bizarra... ”.(Pág. 82)

“Compreende-se as dificuldades da luta nesse solo impraticável quase”.(Pág. 82)

Jagunço marcado pelo heroísmo: “O jagunço é uma tradução justalinear do iluminado da idade média. O mesmo desprendimento pela vida e a mesma indiferença pela morte, dão-lhe o mesmo heroísmo mórbido e inconsciente de hipnotizado e impulsivo”.(Pág. 82)

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