domingo, 30 de março de 2008

FICHAMENTO VI - Antropologia Brasileira

Prado, Paulo. Retratos do Brasil – Ensaio sobre a tristeza brasileira. São Paulo, Cia das Letras, 8a edição, [1928] 1999.

O brasileiro é um homem triste, essa é a consideração de Paulo Prado, a qual ele buscará explicar. Assim como figura algo típico nas análises sobre a composição do Brasil, o autor busca nas ‘raízes’ da colonização do país, e até antes, para a descoberta do sentido do que é o Brasil e quem/como é o brasileiro. Questões que norteavam o pensamento dos autores em sua época. P.P. analisa a situação histórica, uma história das mentalidades, com tristeza, mas uma tristeza de lamento, não de exagero.

A tristeza, que é apresentada como marca do povo brasileiro, vem por dois impulsos: a ambição do ouro e a sensualidade livre.

Luxúria – título do primeiro capítulo. Está ligada à vinculação do sexo, entre o clima e os habitantes do lugar. O exagero pela atividade sexual.

Os dois pontos levantados acima – ambição do ouro e sensualidade livre – são elementos que o europeu se depara e desenvolve na terra brasilis, algo que perpassa uma busca inicial do homem ‘novo’ europeu. Passado pela renascença, trazia a era dos descobrimentos, e o ponto culminante de tal processo fora a Revolução Francesa. Fica claro historicamente que a busca pelo novo, despertou um espírito aventureiro, e isso ficou muito marcado no português – voltado para o mar, para as conquistas. Através de novos conhecimentos o espírito aventureiro ia florescendo. E a busca pelo ouro, a riqueza esplêndida motivava os tais aspirantes.

Com um rico, ágil e compenetrante habilidade descritiva(o segundo adjetivo é característica bem comum à literatura modernista do Brasil) P.P mostra que a admiração pelas riquezas brasileiras já vem descritas na Carta de Caminha. Isso certamente se faz atrativo para as posteriores expedições. Sobre a natureza nas terras recém descobertas pelos portugueses, P.P. traça-a com uma vegetação ‘pesada’, selvagem, como um grande obstáculo a ser superado pelos aventureiros; tornando cruel o objetivo da busca pela riqueza trazida pelo ouro.

Uma combinação ‘explosiva’ se fez: o lugar – com sua natureza selvagem(Brasil), o clima – quente e úmido, a população – bela e sedutora, despudorada; esses fatores serão fundamentais para criar uma idéia de ‘terra livre’, ‘tudo pode’, ‘paraíso bíblico’, e realmente o que não se fazia na Europa, aqui era o lugar; até padres tinham relações sexuais, as mais pervertidas possíveis. Significa que nem a religiosidade e nem a vinculação à instituição religiosa eram freios para os prazeres carnais, tão atrativos naquelas terras.

P.P. enfatiza a origem dos aventureiros colonizadores do Brasil, como arruinados em seus paises de origem. Tal colocação pode ser entendida como um acréscimo no pessimismo de origem, que perpassa o ensaio do autor. Ademais, algo que parece nesta obra e que vem em outras, por diversas épocas – tanto nas ciências sociais quanto em outras áreas – uma certa “culpa” ou responsabilidade na natureza pelo processo colonizador que aqui se executou. Um bom exemplo é Eduardo Galeano – em sua obra máxima Veias Abertas da América Latina, aponta os grandes recursos naturais da América Latina como um dos fatores para a sua constante espoliação por parte das potências européias, ao longo da história, quase um castigo por ter tanta abundância em bens naturais.

A situação do branco europeu que chegava nas terras que hoje chamamos de Brasil era de ausência. Isto é, o colono chegava isolado no individualismo da época. Era um choque. A estrutura social diferente, a relação com o índio trouxe os primeiros miscigenados da formação racial brasileira. Isso não era apenas pela sensualidade e liberdade dos índios(em geral, não havia rancor ou vingança para a traição da mulher índia), mas também pela falta de mulheres brancas. Vale lembrar o romance Desmundo, de Ana Maria Miranda, trata da relação de uma mulher que faz parte da comitiva de órfãs mandadas pela rainha de Portugal para se casarem com os cristãos que aqui habitavam, e a tal mulher acaba se envolvendo com um mouro, montando uma interessante trama... Mas a questão que interessa é que a Igreja, sobretudo, não queria a perpetuação da relação carnal com as índias.

“O clima, o homem livre na solidão, o índio sensual[...].”(P.72) Essa mescla de fatores combinados trouxeram mais razões para a libertinagem animalesca que mais aflorava os instintos sexuais. O estabelecimento do europeu nessas terras se dava pelo gosto da liberdade desregrada. Mas a perspectiva da chegada era: enriquecer facilmente, extorquir a terra e o povo que estiver para trabalhar, para desse modo ir embora.

Por mais que compreendamos a vertente antropológica do autor, tendo seu enfoque está nas relações sociais entre os indivíduos - relação do europeu/português com os outros povos que aqui vieram. Há uma certa carência de enfoque nas instituições político-administrativas para também servir como elemento na caracterização de uma terra sem leis, sem pudor e até sem religião católica dominando a moral dos homens.

Cobiça – Significa a busca pelo ouro, riquezas da terra, de forma desenfreada. Alimentada pela ambição da riqueza fácil – Sonho do Eldorado. Esse era um mito criado, bem maior que a realidade mineral da colônia. O que se pode acrescentar à compreensão do capítulo: está ligado aos sentimentos é a esperança. Elemento forte na busca por metais, pois alimentava o desejo por alcançar as crenças pregadas sobre o ouro que se poderia encontrar.

O isolamento pela falta do Estado ou da administração das capitanias, era um terrível problema. P.P. comenta sobre a invasão francesa no Brasil. É certo dizer que a partir dali haverá maior preocupação com os territórios da colônia, no próprio quesito político-administrativo, além de econômico.

Marco desse movimento de exploração do território: as bandeiras. Cujo objetivo maior era buscar metais preciosos; sendo importantes também para conter a rebeldia escrava. Os bandeirantes eram signatários dessa loucura por busca de ouro e prata. “À essa verdadeira pandemia só escaparam duas classes de colonos: os padres da Companhia e os parasitas sedentários da burocracia metropolitana.”(P.107).

A cobiça engajava uma exploração sem pudor e sem caráter. Não apenas naturalizando o negro escravo como objeto, mas exaurindo tudo o que fosse para a obtenção de sua riqueza – a idéia é de algo não racional, não [ou pouco] calculado. O bandeirante encarnava muito bem esse tipo. Ainda mais por ter um lado valente[macho] com serventia para a crueldade, não apenas nas relações com subalternos e mulheres, sobretudo no seu enfrentamento com a natureza, essa que na sua passividade guarda um lado hostil – clima, mato, deserto.... E a relação era realmente de luta, até porque natureza incluía os índios também. Sem contar a idéia de explorar: solo e pessoas – sobretudo mulheres, e partir, o bandeirante era o sujeito usufrutuário.

Mesmo com tantos apupos sobre as riquezas minerais do Brasil, só mais tarde, com a exploração das Gerais é que a metrópole arrecadará ouro em massa da colônia. E aí há um problema, pois Portugal organiza tardiamente o sistema tributário. Um controle tão perspicaz, que estava sendo montado, irá gerar conflitos com um local tão acostumado às libertinagens.

Indivíduos enriquecem, mas o país continua pobre, pois permanece colônia. sua riqueza é exportada para a metrópole. A cobiça do Rei também era grande, não só na taxação dos impostos, mas a própria exploração das minas pela Casa Real.

Um momento de crise geral em Portugal perante as guerras napoleônicas faz com que Dom João VI fuja com toda a sua corte à capital da colônia – Rio de Janeiro. O Brasil começa a se desenhar melhor, como país – é o início. Mesmo repercutindo em coisas positivas como incremento na cultura, educação, arquitetura, etc. logo tudo isso foi sendo arrefecido pelas delícias da mestiçagem. A críticas de P.P. quanto ao modelo de organização de Portugal sobre a colônia: o atraso do império português, ao fazer uma grande conquista, mas não trabalhar sobre ela, isso resulta na futilidade da cobiça, pois sem organização não há desenvolvimento sobre a riqueza adquirida, mas acaba gerando o próprio empobrecimento. Grande obra resultante é o Brasil – sua cultura, seu povo, etc. Nessa mescla se forma um país com muita: aventura e entusiasmo, e pouca: ordem e razão.

Tristeza­ ­– Os excessos da luxúria – sexo e da cobiça – busca por riqueza, levam a um estágio de melancolia posterior. Isso veio sobre o ser brasileiro, e formou uma raça triste – como coloca P.P.

P.P. inicia o capítulo narrando a chegada dos colonizadores à América do Norte. A intenção é traçar um quadro comparativo com a colonização da América do Sul[pelos povos Ibéricos]. Mostra que a sociedade norte - americana obteve uma homogeneização moral pela disciplina religiosa. Bem como o espírito de cooperação e os laços familiares mais éticos; trouxeram mais conseqüências para a organização e progresso daquele país.

Com toda sua opulência navegadora, pragmatismo, homem estudioso, esse “Homem” de Sagres, tem o devido apreço para Paulo Prado. Mas esse português renascentista e engajado pragmaticamente corrompe-se no contato com a colônia. “A nação portuguesa, corrompida pelo luxo e pela desmoralização dos costumes, perdia, pouco a pouco, a sua primitiva validade”.(P.135). Ao passo que a colônia se tornou principal meio financeiro do Reino Português e o controle fiscal, jurídico e político – herdeiro da Escola de Sagres – não funcionava, como pregava a razão da Escola e que deu a tecnologia para as conquistas, na longínqua colônia, todo o Reino Português começou a ruir, moralmente. Ainda assim, no pródromo da colonização brasileira o português já sofria dessa tal male decadente, o que ocorreu com o contato foi um aprofundamento.

A coesão no setor administrativo fora sempre comprometida. Também, diferente da América do Norte, aqui a religiosidade não exercia o mesmo papel coesivo entre os indivíduos – era, na verdade, um instrumento para acobertar a pobreza e a debilidade do território; pois até o clero português ruíra moralmente.

Problema da escravidão para P.P.: não desenvolve o trabalho autônomo do Português. O tipo ideal do português renascentista desfez-se ao desenvolver os produtos de suas conquistas: a escravidão, a ausência de moral nas colônias, fizeram parte do processo.

Durante o texto há a ênfase em incidir sobre a mestiçagem boa carga de culpa para tal patologia, conforme os termos do autor. Pois mostra que o isolamento e uma mestiçagem apropriada poderiam evitar tais processos degenerativos. Mas é interessante que a análise recai sobre o elemento da organização portuguesa onde é mais proeminente, pois nos locais onde há a ligação mais estreita com a “doença” é nos próprios locais centrais do já ‘organismo doentio’ da Metrópole. P.P. mostra que a própria colocação do português na sociedade mudou. Já que ele mesmo mudou a sociedade, e nesse contato com o novo – um novo com ambientes físicos e sociais atraentes para mudanças fortes -, moldou-o também. O homem emotivo floresceu. A história do Brasil comprova esse desordenamento de desejos espirituais e carnais. Fatores: clima – terra – mulher indígena ou negra. Repercutem fatalmente no vício sexual. Combinado com o fascínio pelo ouro, gerava um êxtase, e da idéia de que do excesso vem um mal estar: melancolia, algo como uma ressaca intermitente. Daí vem o homem triste. O dinamismo daquele português fora sugado por esse novo ethos. E isso se torna um problema psicopatológico, segundo o autor – ao desenvolver a idéia de doença psico-social se aproxima muito da escola literária naturalista. Um agravante importante, além de já ter a população, em maior parte, mestiçada, o negro cativo era um problema. Não pela sua questão de cor, diretamente, mas pelo que a raça trazia(na concepção de P.P.) de um costume que corrompia o sistema econômico e social do colonizador branco. Tanto que para P.P. a mera presença de um cativo na casa-grande já difundia essa a doença. Nesse aspecto vale lembrar o romance: O Cortiço, de Aluísio de Azevedo, onde o português trabalhador, racional, honesto, compenetrado acaba corrompido pelo fascínio pela mulata sensual, provocando uma desestruturação de seu comportamento frente ao trabalho e à família.

P.P. vai fazer algumas diferenciações regionais quanto ao desenvolvimento da tristeza no brasileiro. Cita, inclusive a menor evidência desse male em Recife – pois lá havia uma cidade desde logo influenciada por hábitos e disposição metropolitanos. O Rio de Janeiro é descrito, nos tempos de Brasil Colônia, como sujo, envolvido por hábitos pouco higiênicos, desleixado, muito decorrente da predominância do mulato irradiado na população. Já São Paulo o problema, ao invés dos costumes africanos no Rio, foi a mineração bandeirante que eliminou os elementos sadios da capitania.

O quadro lamentável ainda repercutia nas manifestações coletivas. Sempre passageiras, pela falta de cooperação tão própria do antepassado indígena.

Romantismo – Vem para fechar esse quadro doentio da sociedade brasileira. É um aprofundamento segundo P.P..

Primeiro o autor conceitua o romantismo. A figura de Rousseau resplandece como principal propulsor de tal movimento. E nessa ideologia roussoniana, o Brasil indígena, transparecia como o lugar onde os homens eram bons, pois não havia sociedade moderna. No Brasil um grande aporte receptor dessas idéias foram as Faculdades de Direito(Olinda e São Paulo). A nordestina só veio a desenvolver o idealismo posteriormente com Castro Alves. Já a paulistana, foi o grande centro romântico, sobretudo da segunda geração romântica – byroniana. A qual P.P. tinha maior aversão, pelo fato de estar no mais descabido idealismo, fora da realidade concreta. P.P. destaca duas patologias: hipertrofia da imaginação e exaltação da sensibilidade. O grande problema para o nosso autor modernista é que a recepção dessas idéias no Brasil levou a um aprofundamento do problema do idealismo na vida social do brasileiro, o erotismo exagerado: a tristeza ficou mais latente; quase deixa a entender que era um desperdício de jovens da elite a entrega aos males do século românticos. Ademais, isso gerava, pela lei das reações, um pagamento pelos excessos: misantropia e pessimismo. O romantismo vem para completar o círculo vicioso que se formou.

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