domingo, 30 de março de 2008

RESENHA II - História do Brasil

DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra – Nova história da Guerra do Paraguai. Ed. Companhia das Letras. São Paulo.

O texto comentado é referente ao título “Balanço da Guerra” e à “Conclusão” da obra de Francisco Doratioto – Maldita Guerra. O sentido do “maldito” podemos inferir acerca da necessidade de retirar a poeira sobre as interpretações reproduzidas acerca da Guerra do Paraguai. Primeiro pelo fato de desfazer mitos sobre a superioridade paraguaia ou a mortandade quase completa da população masculina, onde o autor busca apresentar dados plausíveis, reais para ponderar o elemento mais lógico e certo desse fato da história sul-americana. O segundo atributo do “maldita” estaria em paralelo com a devastação que a guerra provocara para o Paraguai e inclusive para o Brasil, em termos econômicos, por exemplo.

No primeiro momento do texto Doratioto apresenta os diversos dados sobre o número de mortos na Guerra do Paraguai, em especial da população paraguaia. A historiografia revisionista mostra que mais de “70% da população e, nesta, a mortandade masculina teria atingido cerca de 99%”(pg456). Ainda assim algo que fica claro é que a ocasião das mortes foi em maioria, decididas por causas indiretas da guerra, como devido à fome, doenças ou exaustão de marchas. Os dados sobre as perdas na guerra variam entre 99% e 8,7% da população, segundo a historiadora norte-americana Vera Blinn Reber, que em 1988 considerava incabíveis os dados que apresentam a populaçao paraguaia como equivalente à média de 1,3 milhões de habitantes. Enfim, através de diversas teses sobre os dados demográficos do Paraguai, antes e depois da guerra, o autor busca desmestificar o mito da imensa mortandade dos paraguaios em combate. Primeiro porque a população poderia não ser tão grande como é vulgarmente propalado; segundo que boa parte dos mortos decorre de fatores indiretos da guerra; terceiro que a diferença entre homens e mulheres já era relevante, em torno de 2/3 de mulheres compondo a população. Contudo, em nenhum momento o impacto da guerra deixa de ser relevante, no sentido de ter sido destruidor para os militares em combate.

Na análise sobre a entrada do Brasil na guerra vale algumas das considerações levantadas. Como a importância da província do Rio Grande do Sul, que por sua localização de fronteira teve papel fundamental, na estratégia militar e no envio de tropas - os maiores contingentes foram dessa província(33803 entre voluntários e guardas nacionais), seguido da Bahia(enviou 15197) e o Município Neutro – Corte(11461). Por mais que tenha tido o ônus da maior preocupação com a guerra, o Rio Grande foi o maior beneficiado financeiramente com os resultados da guerra.

Ainda nesse tema, a Guerra do Paraguai foi um fator de união nacional. Já que perante os facciosismos internos, diferenças entre as províncias e a corte, e demais conflitos, o surgimento de um elemento externo – como inimigo comum – acaba dando um traço de coesão para o ambiente do Brasil daquela época.

A Guerra do Paraguai desenvolveu-se, em partes como um campo de batalha de um conflito diplomático entre Brasil e Argentina. A partir do momento em que a Tríplice Aliança é capaz de aplacar as forças do general Solano Lopez, a extensão da guerra é parte da morosidade no trato entre as questões de interesses internos das tríplice. De um lado a Argentina, que mesmo com conflitos internos, percorre o ideal de refazer o território do Reino do Prata, com a capital em Buenos Aires, e para isso precisaria da anexação do chaco paraguaio; de outro estava o Brasil, que não tinha interesses em ter um gigante, maior que ele próprio ao seu lado, onde foi fundamental a dívida não cobrada dos paraguaios, assim essa funcionava como garantia para a independência do Paraguai, guardada pelo Império do Brasil. Ou seja, o Paraguai acaba sendo um “cabo-de-guerra” entre o Brasil e a Argentina. De modo que a própria política interna paraguaia pendia entre esses dois países.

Em meio ao arraso da economia paraguaia, durante a ocupação da tríplice na região o maior beneficiário foi a Argentina. E também essa circulação interna de mercadorias e subsistência das tropas ocupantes foi o que segurou a própria economia paraguaia por esse tempo. É preciso interpretar que isso não pode justificar qualquer imobilismo do povo paraguaio frente a estrangeiros.

No fim do primeiro capítulo o autor mostra que o Paraguai perde importância para Brasil e Argentina por diferentes motivos. Para o primeiro deve-se à crise do Estado brasileiro – nao podendo manter a mesma envergadura presencial em solo paraguaio, enquanto que para o segundo foi determinante o sucesso da construção do Estado nacional oligárquico argentino – passou a privilegiar o capitalismo central frente a questões de economia interna.

O que relata sobre a conclusão da obra, nos leva a pensar em três elementos para a consolidação da inserção do Brasil nessa guerra. Primeiro a necessidade de navegar no rio Paraguai, segundo um desentendimento quanto a fronteira com as pretensões de Solano Lopez e terceiro conter o predomínio argentino na política regional. Isso significava, entre outras coisas, além de marcar posição, evitar o federalismo em solo brasileiro, o que esfacelaria a política centralizadora do Partido Conservador, sobretudo da política “saquarema” do Visconde do Uruguai.

Um ingrediente peculiar dessa história, que convêm ser bem apresentada é a boa relação entre Brasil e Paraguai antes da guerra. Tendo em vista que a independência paraguaia contou com o Brasil como o primeiro a tê-la reconhecido. Então, a acao paraguaia na região, se deu a partir de uma reação para com a política expansionista de Mitre na Argentina. Inclusive a aliança de Solano Lopez com opositores ao centralismo de Mitre na Argentina foi fator de desgaste nas relações entre esses dois países, já que tal apoio desestabilizava a unidade e formação do Estado argentino. Já o Uruguai era o lugar do cruzamento de interesses paraguaios, brasileiros e argentinos, em situações e tempos diferentes. E logo que houve uma iminência de coalizão entre o Uruguai e o Paraguai, Mitre buscou relação com o Brasil, numa junção liberal, contra os blancos(pró política paraguaia) e para resolver questões de fronteira com Assunção.

Doratioto explica que foi na situação em que o Partido Conservador, em 1868 no Brasil e Domingo Faustino Sarmiento(discordava de Mitre), na Argentina, ambos entram no poder e inviabilizam uma rivalidade para executar parcerias.

Conforme colocado anteriormente, a duração da guerra(1865-1870) se deu pela própria demora dos aliados em concluírem suas pendengas referentes ao objeto em questão – o próprio Paraguai. Inclusive Doratioto coloca que houve uma camuflagem da incompetência de Solano Lopez por conta disso. A batalha naval brasileira de Riachuelo foi decisiva no desmonte da posição militar paraguaia. E ainda sobre a longevidade da guerra vale sublinhar a seguinte citação em que se apontam motivos para a longevidade da guerra: os desentendimentos no comando aliado, a pouca iniciativa por parte dos chefes militares brasileiros, a falta de conhecimento geográfico sobre o Paraguai, o clima hostil, a bravura dos soldados paraguaios e a crescente perda de combatividade da tropa aliada”(pg 480).

O autor faz uso de termos gramscinianos para mostrar a complexidade da Guerra do Paraguai. Não se bastava apenas em um conflito externo entre três países contra um outro. As vitórias de um ou outro partido no âmbito interno de um dos países poderia alterar o cenário da guerra, e suas dimensões, como evitando um acirramento entre Brasil e Argentina.

Como consequências principais dessa guerra. Claro que a maior maldição ficou por conta do Paraguai, pelo grande número de mortos. Apesar de que esse país já estar em estado de miséria mesmo antes da guerra. Certamente a guerra é um marco definidor do sentido do Paraguai como um país. Para o Brasil: o elemento revelador ganhou ar com a exposição da necessidade dos escravos para a nação – o que poderia revelar um certo contra senso, pois os mesmos não eram tidos como cidadãos, mas deveriam entrar na guerra para defender uma nação que não lhes correspondia. Mas além disso, o ponto marcante foi o descenso da monarquia e o surgimento de um elemento singular na política brasileira – o exército como identidade para a nação. E quanto ao lado econômico, foi um desastre, pois houve aumento dos impostos para o pagamento dos grandes gastos do Estado com a guerra. E mesmo que o Brasil ficou como a nação imponente na região, pois teve que mostrar a desenvoltura de ação para agir na guerra, mostrando sua força maior perante os vizinhos – enquanto que a Argentina conseguiu consolidar seu Estado nacional centralizado e obteve ganhos com a economia de guerra, obtendo uma dinamização da economia – no Brasil houve o acirramento de contradições internas do Estado monárquico e obstáculo para o crescimento econômico.




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