domingo, 30 de março de 2008

FICHAMENTO II - Antropologia Brasileira

Candido, A. “O significado de Raízes do Brasil* [1967] In: Raízes do Brasil . 7ª Edição. pp. Xi-xxii, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1973.

A citação que apresenta a singularidade do intelectual, uma das mais belas para apresentar a presença do sujeito frente a história: “A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair em autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais da sua época. Então, registrar o passado não é falar de si; é falar dos que participaram de uma certa ordem de interesses e de visão do mundo, no momento particular do tempo que esse deseja evocar.

Os homens que estão hoje um pouco para cá ou um pouco para lá dos cinqüenta anos aprenderam a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos do passado e em função de três livros: Casa Grande & Senzala(...); Raízes do Brasil(...); Formação do Brasil Contemporâneo(...) Ao lado de tais livros, a obra por tantos aspectos penetrante e antecipadora de Oliveira Viana já parecia superada, cheia de preconceitos ideológicos e uma vontade excessiva de adaptar o real a desígnios convencionais”.(Pág. xi)

“(...)Casa-Grande & Senzala é uma ponte entre o naturalismo dos velhos intérpretes da nossa sociedade, como Sílvio Romero, Euclides da Cunha e mesmo Oliveira Viana, e os pontos de vista mais especificamente sociológicos que se importaria a partir de 1940(...)

Três anos depois aparecia Raízes do Brasil, concebido e escrito de modo completamente diverso.(...) Aos jovens forneceu indicações importantes para compreenderem o sentido de certas posições políticas daquele momento, dominado pela descrença no liberalismo tradicional e a busca de soluções novas; sejas, à direita, no integralismo, seja, à esquerda, no socialismo e no comunismo”.(Pág. Xii)

“No pensamento latino-americano, a reflexão sobre a realidade social foi marcada, desde Sarmiento, pelo senso dos contrastes e mesmo dos contrários – apresentados como condições antagônicas em função das quais se ordena a história dos homens e das instituições(...).

Raízes do Brasil é construído sobre uma admirável metodologia dos contrários, que alarga e aprofunda a velha dicotomia da reflexão latino-americana. Em vários níveis e tipos do real, nós vemos o pensamento do autor se constituir pela exploração de conceitos polares. O esclarecimento não decorre da opção prática ou teórica por um deles(...)”.(Pág. xiv)

“(...)Trabalho e aventura; método e capricho; rural e urbano; burocracia e caudilhismo; norma impessoal e impulso afetivo – são pares que o autor destaca no modo-de-ser ou na estrutura social e política, para analisar e compreender o Brasil e os brasileiros”.(Pág. xv)

“O capítulo I, “Fronteiras da Europa” - que já evidencia o gosto pelo enfoque dinâmico e o senso de complexidade – fala da Ibéria para englobar Espanha e Portugal numa unidade que se desmanchará depois em parte”.(Pág. xv)

“No capítulo seguinte, “Trabalho e Aventura”, surge a tipologia básica do livro, que distingue o trabalhador e o aventureiro, representando duas éticas opostas: uma, busca novas experiências, acomoda-se no provisório e prefere descobrir a consolidar; outra, estima a segurança e o esforço, aceitando as compensações a longo prazo”.(Pág. xv-xvi)

“”Herança Rural”, o terceiro capítulo, parte da deixa relativa à agricultura, analisa a marca da vida rural na formação da sociedade brasileira. Repousando na escravidão, ela entra em crise quando esta declina(...)”.(Pág. xvi)

“A alusão à cidade estabelece a conexão com o capítulo IV, “O Semeador e o Ladrilhador”, que começa pelo estudo da importância da cidade como instrumento de dominação e da circunstância de ter sido fundada neste sentido(...) “Ladrilhador”, o espanhol acentua o caráter da cidade como empresa da razão, contrária à ordem natural, prevendo rigorosamente o plano das que fundou na América, ao modo de um triunfo da linha reta, e que na maioria buscavam as regiões internas(...)”.(Pág. xvii)

“O capítulo sobre “O Homem Cordial” aborda características que nos são próprias, como conseqüência dos traços apontados antes(...).

O “homem cordial” não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva, inclusive suas manifestações externas, não necessariamente sinceras e profundas, que se opõem aos ritualismos da polidez”.(Pág. xvii)

“O capítulo VI, “Novos Tempos”, estuda certas conseqüências dos anteriores na configuração da sociedade brasileira, a partir da vinda da Família Real, que causou o primeiro choque nos velhos padrões coloniais”.(Pág. xviii)

“O capítulo VII, “Nossa Revolução”(...)O seu movimento consiste em sugerir(...) como a dissolução da ordem tradicional ocasiona contradições não resolvidas, que nascem no nível da estrutura social e se manifestam no das instituições e idéias políticas”.(Pág. xix)

“Para ele[SBH], a “nossa revolução” é a fase mais dinâmica(...) do processo de dissolução da velha sociedade agrária, cuja base foi suprimida de uma vez por todas pela Abolição”.(Pág. xx)

“(...)No entanto, parece-lhe que há entre nós condições que permitem a convergência rumo à democracia – como a repulsa pela hierarquia, a relativa ausência dos preconceitos de raça e cor, o próprio advento das formas contemporâneas de vida”.(Pág. xxi)

“Num tempo ainda banhado de indisfarçável saudosismo patriarcalista, sugeria que, do ponto de vista metodológico, o conhecimento do passado deve estar vinculado aos problemas do presente”.(Pág. xxi)

Nenhum comentário: