domingo, 30 de março de 2008

FICHAMENTO III - Antropologia Brasileira

Freyre, Gilberto. “Casa-Grande & Senzala”, pp. 429-478, 20a ed. São Paulo, Círculo do Livro, [1933] 1980.

Capítulo V – O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro(continuação)

Casa-Grande: dimensão educacional - “Até meados do século XIX, quando vieram as primeiras estradas de ferro, o costume nos engenhos foi fazerem os meninos os estudos em casa, com o capelão ou com o mestre particular. As casas-grandes tiveram quase sempre sala de aula, e muitas vezes aos meninos se reuniam crias e muleques, todos aprendendo juntos a ler e escrever; a contar e a rezar. Noutros engenhos cresceram em igual ignorância meninos e muleques.

Os colégios dos jesuítas nos primeiros dois séculos, depois os seminários e colégios de padre, foram os grandes focos de irradiação de cultura no Brasil colonial”.(Pág. 430)

Gilberto Freyre mostra que os escravos executaram funções muito além da enxada e da cozinha: “Muitos acrobatas de circo, sangradores, dentistas, barbeiros e até mestres de menino – tudo isto foram os escravos no Brasil...Muito menino brasileiro deve ter tido seu primeiro herói, não nenhum médico, oficial de marinha ou bacharel branco, mas um escravo acrobata que viu executando piruetas difíceis nos circos e bumbas-meu-boi de engenho”.(Pág. 434)

Educação dura: “Nos antigos colégios...abusou-se criminosamente da fraqueza infantil. Houve verdadeiras volúpia em humilhar a criança; em dar bolo em menino”.(Pág. 436)

Pronomes de tratamento: “É verdade que desde tempos remotos o “senhor” se adoçou em “sinhô”, em “nhonhõ”, em “ioiô”; do mesmo modo que “negro” adquiriu na boca dos brancos um sentido de íntima e especial ternura: “meu nego”, “minha nega”; e nas cartas coloniais; “Saudoso primo e muito seu nego”, “negrinha humilde”, etc”.(Pág. 438)

Traça o perfil da mulher, quanto ao atrativo sexual: “O qual sustentava que “castidade, vergonha, recolhimento, pejo, encolhimento, sizudeza e modéstia” foram sempre “o insigne distintivo das mulheres do Brasil [...]”. É verdade, acrescentou, que “em muitas mulheres pretas, e pardas falta talvez a compostura, e sobeja a liberdade””.(Pág. 440)

Relações inter-raciais no âmbito sexual – vencedores e vencidos: “O que houve no Brasil – cumpre mais uma vez acentuar com relação às negras e mulatas, ainda com maior ênfase do que com relação às Índias e mamelucas – foi a degradação das raças atrasadas pelo domínio da adiantada. Esta desde o princípio reduziu os indígenas ao cativeiro e à prostituição”.(Pág. 443)

Ócio improdutivo dos homens: “O açúcar não teve, por certo, responsabilidade tão direta pela moleza dos homens. Teve-a, porém, e grande, como causa indireta: exigindo escravos; repelindo a policultura. Exigindo escravos para “mãos e pés do senhor de engenho”, como disse Antonil”. E não só de senhor de engenho português, já viciado na escravidão: os holandeses...reconheceram a necessidade de se apoiarem no negro....(Pág. 444) Interessante completar com essa parte: “Ociosa, mas alagada de preocupações sexuais, a vida do senhor de engenho tornou-se uma vida de rede. Rede parada, com o senhor descansando, dormindo, cochilando. Rede andando, com o senhor em viagem ou a passeio debaixo de tapetes ou cortinas”.(Pág. 445)

Relação forte entre com o senhor de engenho, o choro representava a incerteza pelo que viria, sem o 'ponto seguro' que era o senhor. Em contrapartida havia uma certa comoção do senhor para os bens e escravos que ficavam: “Ao sentirem aproximar-se a morte, pensavam os senhores nos seus bens e escravos em relação com os filhos legítimos seus descendentes;...Mas acusam – às vezes em antagonismo com esse espírito de perpetuidade e de legitimidade – um vivo sentimento cristão de ternura pelos bastardos e pelas negras”.(Pág. 452)

Religiosidade afeita nas amostras grandiloqüentes: “Le Gentil de la Barvinais escreveu que se não fossem os santos e as amásias os colonos, no Brasil, seriam muito ricos. Mas todo dinheiro era pouco para fazerem figura nas festas de igreja, que se realizavam com uma grande pompa -...- e no adorno das fêmeas; de negras e mulatas cheias de balangandãs e tetéias de ouro.”(Pág. 456)

Questão da miscigenação: “O intercurso sexual de brancos dos melhores estoques – inclusive eclesiásticos, sem dúvida nenhuma, dos elementos mais seletos e eugênicos na formação brasileira – com escravas negras e mulatas formidáveis. Resultou daí grossa multidão de filhos, ilegítimos – mulatinhos criados muitas vezes com a prole legítima, dentro do liberal patriarcalismo das casas-grandes; outros à sombra dos engenhos de frades; ou então nas “rodas” e orfanatos”.(Pág. 458)

G.Freyre explica a passagem de características raciais como transmissão de cultura também: “Nossa insistência visa outro fim: acentuar que à formação brasileira não faltou o concurso genético de um elemento superior recrutado dentre as melhores famílias e capaz de transmitir à prole as maiores vantagens do ponto de vista eugênico e de herança social. Daí o fato de tanta família ilustre no Brasil fundada por padre ou cruzada com sacerdote; o fato de tanto filho e neto de padre, notável nas letras, na política, na....”.(Pág. 460)

“No caso dos escravos constituídos cristâmente em família, à sombra das casas-grandes e dos velhos engenhos, terá havido na adoção dos nomes fidalgos, menos vaidade tola que natural influência do patriarcalismo, fazendo os pretos e mulatos, em seu esforço de ascensão social, imitarem os senhores brancos e adotarem-lhes as formas exteriores de superioridade. É, aliás, digno de observar-se que muitas vezes o nome ilustre ou fidalgo dos senhores brancos foi absorvido no indígena e até no africano das propriedades rurais...”.(Pág. 466)

Culinária, influências: “No regime alimentar brasileiro, a contribuição africana afirmou-se principalmente pela introdução do azeite-de-dendê e da pimenta-malagueta, tão característicos da cozinha baiana; pela introdução do quiabo; pelo maior uso da banana; pela grande variedade da maneira de preparar a galinha e o peixe. Várias comidas portuguesas ou indígenas foram no Brasil modificadas pela codimentação ou pela técnica culinária do negro, alguns dos pratos caracteristicamente brasileiro são de técnica africana: a farofa, o quibebe, o vatapá”.(Pág. 468)

“A cozinha da casa-grande brasileira dos tempos coloniais não foi decerto nenhum modelo de higiene. Mawe, Luccock, Mathison referem-se todos com repugnância à sujeira das cozinhas que conheceram. Menos, porém, por culpa das escravas negras que dos senhores brancos, essa falta de limpeza nas cozinhas não só das casas pobres, como das casas-grandes”.(Pág. 475)

A tristeza do português é quebrada com a risada do negro: “Foi ainda o negro quem animou a vida doméstica do brasileiro de sua maior alegria. O português, já de si melancólico, deu no Brasil para sorumbático, tristonho; e do caboclo nem se fala: calado, desconfiado, quase um doente na sua tristeza. Seu contato só fez acentuar a melancolia portuguesa. A risada do negro é que quebrou toda essa “apagada e vil tristeza” em que se foi abafando a vida nas casas-grandes. Ele que deu alegria aos são-joões de engenho; que animou os bumbas-meu-boi, os cavalos-marinhos, os carnavais, as festas de Rei”.(Pág. 476)

Outro lado...: “Mas não foi toda de alegria a vida dos negros, escravos dos ioiôs e das iaiás brancas. Houve os que se suicidaram comendo terra, enforcando-se, envenenando-se com ervas e potagens dos mandigueiros. O banzo deu cabo de muitos. O banzo – a saudade da África. Houve os que de tão banzeiros ficaram lesos, idiotas. Não morreram: mas ficaram penando. E sem achar gosto na vida normal”.(Pág. 478)

O lado perverso da miscigenação – doenças: “E comunicando-se às vezes aos brancos das casas-grandes. A África também tomou vingança dos maus-tratos recebidos da Europa. Mas foram poucas as doenças de brancos que os negros domésticos adquiriram; e as que se apoderaram deles em conseqüência da má higiene no transporta da África para a América ou das novas condições de habitação e de trabalho forçado”.(Pág. 478)

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