SANTIAGO, Silviano(coord.). Intérpretes do Brasil. 2. Sobrados e Mucambos, Gilberto Freire. Ed. Nova Aguilar S. A.. Rio de Janeiro, 2000.
O capítulo referente a presente resenha consta com o título “A Mulher e o Homem”, na fundamental obra de Gilberto Freyre – Sobrados e Mucambos. Ao analisar as relações homem-mulher na sociedade patriarcal durante, toma o contexto do declínio do poder patriarcal como variante estrutural desse meio de relação privada. A passagem do regime patriarcal para um semipatriarcalismo, mais ligado ao avanço histórico da república, ou para a urbanidade deixou marcas no ethos feminino, e na tal interação heterossexual, bem como em toda a esfera da vida íntima da sociedade brasileira.
De saída o autor mostra como se desenvolveu a sobreposição moral do homem sobre a mulher. O sexo forte do homem se colocando na posição de dominador, minorando a penetração de elementos femininos na composição social. Freyre irá buscar as raízes filosóficas para esse peso do homem sobre a mulher, algo um tanto quanto opressivo.
Antes de tudo é preciso mostrar que as sociedades primitivas não possuem tão grande diferenciação física entre os sexos. Isso é resultado da própria divisão social do trabalho, que não separava contundentemente as posições do homem e da mulher. Portanto, “não é certo que o sexo determine de maneira absoluta a divisão do trabalho...”(pág890) nessas sociedades.
Outrossim, ao surgirem as concepções filosóficas de sobreposição de sexo, há o efeito de elevação do homem, perante praticamente todos os outros seres. É certo que essa marca de elevação se dará na raça, mas o sexo é outro elemento hierarquizante. Aponta para o sentido de ter “sexo forte” a preponderância em praticamente tudo. A sociedade patriarcal abre sua senda social perante uma relação de hierarquia interna[homem-mulher], vide citação seguinte: “De modo geral, o homem foi, dentro do patriarcalismo brasileiro, o elemento móvel, militante e renovador; a mulher, o conservador, o estável, o de ordem. O homem, o elemento de imaginação mais criadora e de contatos mais diversos e, portanto, mais inventor, mais diferenciador, mais perturbador da rotina. A mulher, o elemento mais realista e integrador”(pág. 895).
Ao apresentar o paradigma racial para explicar diferenças cognitivas e a superioridade do homem branco, logo Gilberto Freyre chama a atenção para dados que desmistificam esse paradigma. Toma por base a “escola de Boas” – o culturalismo antropológico, que rompe com preceitos de superioridade branco-negro, entre outros; daí que esse ponto desenvolve-se no esfacelamento da idéia de superioridade natural do homem sobre a mulher. Em outros momentos do texto há a citação do paradigma cultural para deslegitimar intenções de pôr frente a teorias de superioridade inata do homem branco.
O subjetivismo é uma marca forte na vida brasileira. Está marcadamente influenciado pela literatura francesa, e seguiu sua risca com as literaturas brasileiras de estilo subseqüente. Revelam um traço intimista que guarda o caráter inteiramente masculino ao tratar dos mais diversos assuntos. Sem contar que a mulher era substancialmente idealizada e edificada como algo passivo, puro objeto dos sonhos e depois práticas sexuais do marido.
Mesmo os mais liberais, no espaço público, são conservadores em casa. Isso era corrente na sociedade brasileira(claro que eu outras também). A ocasião de reclusão da mulher para bel-prazer do homem, sobre a guarda da lei inclusive, não foi objeto de críticas dos liberais.
Àqueles que são dirigidos significados de poder, acabam se conformando de algum modo para se significar perante o elemento maior na hierarquia. E como isso estava dado, era tácito na sociedade imperial brasileira, cabia às mulheres buscaram se diferenciar ao máximo do homem – sendo na busca por um corpo não robusto, no uso do espartilho[verdadeira tortura para diminuir a cintura], nas jovens se vestindo de velhas[marcando a sisudez e a diminuição de liberdade].
Progressivamente o caminho para essa desdiferenciação entre a mulher e o homem segue pelos elementos de extroversão das pessoas. O teatro, os romances, os estudos, o estudo de línguas, são exemplos desse fato fundamental para provocar rupturas nessa sufocante relação. Pois a situação de univocidade sexual masculina não ousava a perpetuação de qualquer significado de feminilidade na sociedade. Isso provocava, inclusive, uma solidão ou uma ‘iluminação própria’[que é a pior das solidões segundo o poeta português Fernando Pessoa] advinda desse narcisismo.
O que é marcante ao longo de todo o texto é a maneira como Gilberto Freyre desvenda os laços internos como significantes do contexto social. Por exemplo: nessa mesma medida de progresso higiênico das famílias, onde a introdução do ‘médico de família’ foi essencial, esse sujeito vai trazer componentes ao âmbito privado que reverberarão no espaço público, quase como numa situação dialética. O autor mostra, quanto a esse caso, como o médico terá repercussão na vida da mulher, no sentido de ‘abrir portas’ para situações diferentes de vida.
Ainda no caminho de decadência do patriarcalismo vale avaliar que no mesmo ritmo de superação do pater famílias, pelo médico, mestre-régio, político, juiz, dentre outros, era o caminho de descrição da mitigação da casa-grande perante outras instituições que guardavam mais elementos modernizadores, urbanos, ou adaptativos a novas situações – Igreja, pelos bispos; o Governo, o Banco, o Colégio, a Fábrica, a Oficina e a Loja. E “com a ascendência dessas figuras e dessas instituições, a figura da mulher foi, por sua vez, libertando-se da excessiva autoridade patriarcal”(pág 913).
A família é um importante instituto em que se irrompe várias situações da ruína do patriarcalismo. Como a situação do rapto de mulheres para um casamento. Haja visto que o casamento era algo difícil: era um negócio que envolvia sobrenome, dotes, avaliação física do pretendente, situação social do mesmo, entre outros atributos, ou chancelas para a efetivação do ‘negócio’.
Tratando sobre o processo de interatividade social-urbana e europeização da sociedade brasileira, Gilberto Freire caminha para o final do capítulo.
“Das ruas e praças melhores, pelo menos. As cidades principais do Império viram chegar o fim da era imperial com as ruas e praças iluminadas a gás. O que diminuiu o número de crimes de assalto - ... – nas próprias ruas centrais, diminuindo também o número de aparições de almas penadas, lobisomens, mulas-sem-cabeça, cabras-cabriolas, que foram, umas, tornando-se fenômenos apenas rústicos, quando muito, suburbanos, outras, refugiando-se no interior de sobradões abandonados por famílias decadentes, alguns dos quais grandes demais para serem inteiramente bem iluminados...”(pág.925)
O trecho acima não é simplesmente revelador da urbanização e laicização da vida moral, contudo é um exemplo da maneira modernizante da sociedade brasileira. A ‘queda’ das famílias mais afogadas pelo novo tecido social que vai sendo costurado, não possui sustentação popular, ou mesmo um laço constante e atuante, inclusive na modernização do país. Quando não faz pior e degrada, olvida-se dos elementos constituidores fundamentais.
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