domingo, 30 de março de 2008

FICHAMENTO V- Antropologia Brasileira

Hollanda, Sérqio Buarque de [1936] Raízes do Brasil, Rio de Janeiro, Liv. José Olympio Editora, 7ª ed, 1973. Fichamento do capítulo 5 (“O homem cordial”).

Inicia fazendo a distinção entre Estado e Família: “O Estado não é uma ampliação do círculo familiar e, ainda menos, uma integração de certos agrupamentos(...)Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição”.(Pág. 101)

Crítica ao moderno: “Foi o moderno sistema industrial que, separando os empregadores e empregados nos processos de manufatura e diferenciando cada vez mais suas funções, suprimiu a atmosfera de intimidade que reinava entre uns e outros e estimulou os antagonismos de classe”.(Pág. 102)

Preocupação com a coesão social frente à modernidade: “A crise de adaptação dos indivíduos ao mecanismo social é, assim, especialmente sensível no nosso tempo devido ao decisivo triunfo de certas virtudes antifamiliares por excelência, como o são, sem dúvida, aquelas que repousam no espírito de iniciativa pessoal e na concorrência entre os cidadãos”.(Pág. 104)

Não era fácil aos detentores das posições públicas(...)a distinção fundamental entre os domínios do privado e do público. Assim, eles se caracterizam justamente pelo que separa o funcionário “patrimonial” do puro burocrata conforme a definição de Max Weber”.(Pág. 105)

No Brasil a família foi a esfera mais desenvolvida da vida social: “Dentre esses círculos, foi sem dúvida o da família aquele que se exprimiu com mais força e desenvoltura em nossa sociedade(...)núcleo familiar – a esfera, por excelência dos chamados “contatos primários”, dos laços de sangue e de coração – está em que as relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós”.(Pág. 106)

Homem cordial: “Já disse, numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o “homem cordial””.(Pág. 106)

Polidez como preservação: “Nossa forma ordinária de convívio social é no fundo, justamente o contrário da polidez. Ela pode iludir na aparência(...)de peça de resistência. Equivale a um disfarce que permitirá a cada qual preservar inatas sua sensibilidade e suas emoções”.(Pág. 107)

Característica do “homem cordial” - desejo pela intimidade: “A manifestação normal do respeito em outros povos tem aqui sua réplica, em regra geral, no desejo de estabelecer intimidade”.(Pág. 108)

Relações pessoais: “Um negociante da Filadélfia manifestou certa vez a André Siergfried seu espanto ao verificar que, no Brasil como na Argentina, para conquistar um freguês tinha necessidade de fazer dele um amigo”.(Pág. 109)

Quanto à religião católica, o rigorismo se adapta: “No Brasil é precisamente o rigorismo do rito que se afrouxa e se humaniza”.(Pág. 110)

Só por obra externa para quebrar esse jugo: “Assim, nenhuma elaboração política seria possível senão fora dela, fora de um culto que só apelava para os sentimentos e os sentidos e quase nunca para a razão e a vontade. Não admira pois, que nossa República tenha sido feita pelos positivistas, ou, agnósticos e nossa Independência fosse obra de maçons”.(Pág. 111)

Coesão do brasileiro: “A vida íntima do brasileiro nem é bastante coesa, nem bastante disciplinada, para envolver e dominar toda a sua personalidade, integrando-a, como peça consciente, no conjunto social. Ele é livre, pois, para se abandonar a todo o repertório de idéias, gestos e formas que encontre em seu caminho, assimilando-os freqüentemente sem maiores dificuldades”.(Pág. 112)

FICHAMENTO IV- Antropologia Brasileira

Rodrigues, Nina. “O Brasil antropológico e étnico” In: As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil, cap. IV, pp. 83-103, Rio de Janeiro, Livraria Progresso Editora [1894] 1957.

“No ponto de vista histórico e social penso com o Dr. Silvio Romero: todo brasileiro é mestiço, senão no sangue, pelo menos nas idéias”.(Pág. 83)

“...elementos psicológicos puros não cruzados”.(Pág. 84) – isto é, que é parte da minoria de elementos puros

“a) a raça branca, ... brancos crioulos não mesclados e pelos europeus... ”.(Pág. 84)

“b) a raça negra, .... poucos africanos que ainda existentes no Brasil.... ”.(Pág. 84)

“c) a raça vermelha, ou indígena... ”.(Pág. 84)

Apresenta a distinção de classes ou grupos que adotou em seu estudo da população mestiça, faz uma classificação.

“Os mestiços compreendem:

“1o os mulatos, produto do cruzamento do branco com o negro, grupo muito numeroso...a) mulatos...; b) mulatos claros...; c) mulatos escuros...;

“2o os mamelucos ou caboclos, produtos do cruzamento do branco com o índio...;

“3o os curibocas ou cafusos, produtos do cruzamento do negro com o índio...;

“4o os pardos, produto do cruzamento das três raças e proveniente principalmente do cruzamento do mulato com o índio, ou com os mamelucos caboclos. ”.(Pág. 85-6)

“A situação atual é a seguinte.

“Em certos estados...as raças puras ameaçam desaparecer ou diluir-se no mestiçamento.”.(Pág. 88)

Reitera argumentos de Silvio Romero, mas chega ao momento de declarar diferenciação entre seu pensamento: “Admitindo, como admito, a população brasileira assim dividida em grupos étnicos distintos, consoantes com as proporções variáveis em que entraram em sua composição as três raças puras, afasto-me definitivamente do Dr. Silvio Romero, a cujos importantes trabalhos na espécie devo ensinar-vos a render o devido e merecido respeito.

Não acredito na unidade ou quase unidade étnica, presente ou futura, da população brasileira...considero pouco provável que a raça branca consiga fazer predominar o seu tipo, em toda a população brasileira. ”.(Pág. 90)

“....quão pouco uniforme etnologicamente é e será o Brasil. ”.(Pág. 91)

“Mas não vejo razão para se acreditar que o futuro há de pertencer ao branco e não ao mulato”.(Pág. 92)

Ao rebater os argumentos de Romero: “Destes preceitos, conclui-se facilmente que o autor não confia na expansão demográfica da raça branca abandonada aos seus próprios recursos... ”.(Pág. 93)

Questiona o argumento de S. Romero que diz: “ “O mestiço é a condição da vitória do branco, fortificando-lhe o sangue...”

Ora, acaso a raça branca precisa desses recursos, carece do auxílio do mulato para adaptar-se, para desenvolver-se no sul da república?”.(Pág. 93)

E com os próprios argumentos de S. Romero, constrói seu argumento: “É ainda o Dr. Silvio Romero quem nos ensina, até certo ponto de acordo com Orgeas, que em contacto com o branco, o negro não se civiliza, mas também não se extingue”.(Pág. 95)

“...nesta primeira região, duas raças puras ainda existem...uma, a negra, é perfeitamente adaptável; a outra, a branca, é de uma adaptação mais difícil....como nestas condições a raça que tende a predominar é a mais adaptável, receio deve ser que a reversão à raça pura não seja em favor da raça negra... ”.(Pág. 95)

“A distinção etnológica que estabeleço entre as duas regiões do sul, procura o seu fundamento natural em que, no extremo sul, o elemento negro é muito insignificante e predomina o elemento germânico; no centro, o negro é numeroso e predomina a imigração ítalo-portuguesa”.(Pág. 96-7)

Sobre a baixa influência no negro no norte do Brasil, também argumento para dialogar com S. Romero: “Do estudo da língua, das crenças e das tradições populares aqui, ressalta em toda a evidência a inferioridade desse elemento e a supremacia das raças indígenas”.(Pág. 98)

“Não será, portanto, o branco quem há de provavelmente desalojar o índio, porque o clima que já impede a imigração européia para o norte, não deixará de faze-lo para o Pará e o Amazonas”.(Pág. 99)

Ao contar com a migração de nordestinos para o norte, que já ocorria naquela época: “Provavelmente à população mestiça está reservada a missão de levar consigo, na sua lenta expansão demográfica, a civilização e a cultura européia ao extremo norte e ao oeste”.(Pág. 99)

“Prevejo que se possam argüir duas principais objeções à divisão etnológica do Brasil, que adotei e expus....Primeiro, que mesmo nas zonas descritas não existe uniformidade étnica; segundo, que seja esse apenas o aspecto atual, e todo de ocasião, do país, sem probabilidade de uma confirmação futura”.(Pág. 100)

Divisão do país, com base em S. Romero: “ “...A zona quente admita uma divisão geral: a) as terras mais ou menos pantanosas das costas, as do grande vale do Amazonas e do Paraguai, onde reinam as moléstias hepáticas e as febres palustres; b) a região sertaneja, compreendendo todo o interior norte do país, o teatro das secas. A região fresca também sobre uma divisão: a) as três províncias meridionais, onde vagueia o minuano frio e ríspido; b) as terras altas das províncias intermediárias, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas...não tem o valor e a uberdade do norte nem a esterilidade relativa dos terrenos do sul”.(Pág. 101)

FICHAMENTO III - Antropologia Brasileira

Freyre, Gilberto. “Casa-Grande & Senzala”, pp. 429-478, 20a ed. São Paulo, Círculo do Livro, [1933] 1980.

Capítulo V – O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro(continuação)

Casa-Grande: dimensão educacional - “Até meados do século XIX, quando vieram as primeiras estradas de ferro, o costume nos engenhos foi fazerem os meninos os estudos em casa, com o capelão ou com o mestre particular. As casas-grandes tiveram quase sempre sala de aula, e muitas vezes aos meninos se reuniam crias e muleques, todos aprendendo juntos a ler e escrever; a contar e a rezar. Noutros engenhos cresceram em igual ignorância meninos e muleques.

Os colégios dos jesuítas nos primeiros dois séculos, depois os seminários e colégios de padre, foram os grandes focos de irradiação de cultura no Brasil colonial”.(Pág. 430)

Gilberto Freyre mostra que os escravos executaram funções muito além da enxada e da cozinha: “Muitos acrobatas de circo, sangradores, dentistas, barbeiros e até mestres de menino – tudo isto foram os escravos no Brasil...Muito menino brasileiro deve ter tido seu primeiro herói, não nenhum médico, oficial de marinha ou bacharel branco, mas um escravo acrobata que viu executando piruetas difíceis nos circos e bumbas-meu-boi de engenho”.(Pág. 434)

Educação dura: “Nos antigos colégios...abusou-se criminosamente da fraqueza infantil. Houve verdadeiras volúpia em humilhar a criança; em dar bolo em menino”.(Pág. 436)

Pronomes de tratamento: “É verdade que desde tempos remotos o “senhor” se adoçou em “sinhô”, em “nhonhõ”, em “ioiô”; do mesmo modo que “negro” adquiriu na boca dos brancos um sentido de íntima e especial ternura: “meu nego”, “minha nega”; e nas cartas coloniais; “Saudoso primo e muito seu nego”, “negrinha humilde”, etc”.(Pág. 438)

Traça o perfil da mulher, quanto ao atrativo sexual: “O qual sustentava que “castidade, vergonha, recolhimento, pejo, encolhimento, sizudeza e modéstia” foram sempre “o insigne distintivo das mulheres do Brasil [...]”. É verdade, acrescentou, que “em muitas mulheres pretas, e pardas falta talvez a compostura, e sobeja a liberdade””.(Pág. 440)

Relações inter-raciais no âmbito sexual – vencedores e vencidos: “O que houve no Brasil – cumpre mais uma vez acentuar com relação às negras e mulatas, ainda com maior ênfase do que com relação às Índias e mamelucas – foi a degradação das raças atrasadas pelo domínio da adiantada. Esta desde o princípio reduziu os indígenas ao cativeiro e à prostituição”.(Pág. 443)

Ócio improdutivo dos homens: “O açúcar não teve, por certo, responsabilidade tão direta pela moleza dos homens. Teve-a, porém, e grande, como causa indireta: exigindo escravos; repelindo a policultura. Exigindo escravos para “mãos e pés do senhor de engenho”, como disse Antonil”. E não só de senhor de engenho português, já viciado na escravidão: os holandeses...reconheceram a necessidade de se apoiarem no negro....(Pág. 444) Interessante completar com essa parte: “Ociosa, mas alagada de preocupações sexuais, a vida do senhor de engenho tornou-se uma vida de rede. Rede parada, com o senhor descansando, dormindo, cochilando. Rede andando, com o senhor em viagem ou a passeio debaixo de tapetes ou cortinas”.(Pág. 445)

Relação forte entre com o senhor de engenho, o choro representava a incerteza pelo que viria, sem o 'ponto seguro' que era o senhor. Em contrapartida havia uma certa comoção do senhor para os bens e escravos que ficavam: “Ao sentirem aproximar-se a morte, pensavam os senhores nos seus bens e escravos em relação com os filhos legítimos seus descendentes;...Mas acusam – às vezes em antagonismo com esse espírito de perpetuidade e de legitimidade – um vivo sentimento cristão de ternura pelos bastardos e pelas negras”.(Pág. 452)

Religiosidade afeita nas amostras grandiloqüentes: “Le Gentil de la Barvinais escreveu que se não fossem os santos e as amásias os colonos, no Brasil, seriam muito ricos. Mas todo dinheiro era pouco para fazerem figura nas festas de igreja, que se realizavam com uma grande pompa -...- e no adorno das fêmeas; de negras e mulatas cheias de balangandãs e tetéias de ouro.”(Pág. 456)

Questão da miscigenação: “O intercurso sexual de brancos dos melhores estoques – inclusive eclesiásticos, sem dúvida nenhuma, dos elementos mais seletos e eugênicos na formação brasileira – com escravas negras e mulatas formidáveis. Resultou daí grossa multidão de filhos, ilegítimos – mulatinhos criados muitas vezes com a prole legítima, dentro do liberal patriarcalismo das casas-grandes; outros à sombra dos engenhos de frades; ou então nas “rodas” e orfanatos”.(Pág. 458)

G.Freyre explica a passagem de características raciais como transmissão de cultura também: “Nossa insistência visa outro fim: acentuar que à formação brasileira não faltou o concurso genético de um elemento superior recrutado dentre as melhores famílias e capaz de transmitir à prole as maiores vantagens do ponto de vista eugênico e de herança social. Daí o fato de tanta família ilustre no Brasil fundada por padre ou cruzada com sacerdote; o fato de tanto filho e neto de padre, notável nas letras, na política, na....”.(Pág. 460)

“No caso dos escravos constituídos cristâmente em família, à sombra das casas-grandes e dos velhos engenhos, terá havido na adoção dos nomes fidalgos, menos vaidade tola que natural influência do patriarcalismo, fazendo os pretos e mulatos, em seu esforço de ascensão social, imitarem os senhores brancos e adotarem-lhes as formas exteriores de superioridade. É, aliás, digno de observar-se que muitas vezes o nome ilustre ou fidalgo dos senhores brancos foi absorvido no indígena e até no africano das propriedades rurais...”.(Pág. 466)

Culinária, influências: “No regime alimentar brasileiro, a contribuição africana afirmou-se principalmente pela introdução do azeite-de-dendê e da pimenta-malagueta, tão característicos da cozinha baiana; pela introdução do quiabo; pelo maior uso da banana; pela grande variedade da maneira de preparar a galinha e o peixe. Várias comidas portuguesas ou indígenas foram no Brasil modificadas pela codimentação ou pela técnica culinária do negro, alguns dos pratos caracteristicamente brasileiro são de técnica africana: a farofa, o quibebe, o vatapá”.(Pág. 468)

“A cozinha da casa-grande brasileira dos tempos coloniais não foi decerto nenhum modelo de higiene. Mawe, Luccock, Mathison referem-se todos com repugnância à sujeira das cozinhas que conheceram. Menos, porém, por culpa das escravas negras que dos senhores brancos, essa falta de limpeza nas cozinhas não só das casas pobres, como das casas-grandes”.(Pág. 475)

A tristeza do português é quebrada com a risada do negro: “Foi ainda o negro quem animou a vida doméstica do brasileiro de sua maior alegria. O português, já de si melancólico, deu no Brasil para sorumbático, tristonho; e do caboclo nem se fala: calado, desconfiado, quase um doente na sua tristeza. Seu contato só fez acentuar a melancolia portuguesa. A risada do negro é que quebrou toda essa “apagada e vil tristeza” em que se foi abafando a vida nas casas-grandes. Ele que deu alegria aos são-joões de engenho; que animou os bumbas-meu-boi, os cavalos-marinhos, os carnavais, as festas de Rei”.(Pág. 476)

Outro lado...: “Mas não foi toda de alegria a vida dos negros, escravos dos ioiôs e das iaiás brancas. Houve os que se suicidaram comendo terra, enforcando-se, envenenando-se com ervas e potagens dos mandigueiros. O banzo deu cabo de muitos. O banzo – a saudade da África. Houve os que de tão banzeiros ficaram lesos, idiotas. Não morreram: mas ficaram penando. E sem achar gosto na vida normal”.(Pág. 478)

O lado perverso da miscigenação – doenças: “E comunicando-se às vezes aos brancos das casas-grandes. A África também tomou vingança dos maus-tratos recebidos da Europa. Mas foram poucas as doenças de brancos que os negros domésticos adquiriram; e as que se apoderaram deles em conseqüência da má higiene no transporta da África para a América ou das novas condições de habitação e de trabalho forçado”.(Pág. 478)

FICHAMENTO II - Antropologia Brasileira

Candido, A. “O significado de Raízes do Brasil* [1967] In: Raízes do Brasil . 7ª Edição. pp. Xi-xxii, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1973.

A citação que apresenta a singularidade do intelectual, uma das mais belas para apresentar a presença do sujeito frente a história: “A certa altura da vida, vai ficando possível dar balanço no passado sem cair em autocomplacência, pois o nosso testemunho se torna registro da experiência de muitos, de todos que, pertencendo ao que se denomina uma geração, julgam-se a princípio diferentes uns dos outros e vão, aos poucos, ficando tão iguais, que acabam desaparecendo como indivíduos para se dissolverem nas características gerais da sua época. Então, registrar o passado não é falar de si; é falar dos que participaram de uma certa ordem de interesses e de visão do mundo, no momento particular do tempo que esse deseja evocar.

Os homens que estão hoje um pouco para cá ou um pouco para lá dos cinqüenta anos aprenderam a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos do passado e em função de três livros: Casa Grande & Senzala(...); Raízes do Brasil(...); Formação do Brasil Contemporâneo(...) Ao lado de tais livros, a obra por tantos aspectos penetrante e antecipadora de Oliveira Viana já parecia superada, cheia de preconceitos ideológicos e uma vontade excessiva de adaptar o real a desígnios convencionais”.(Pág. xi)

“(...)Casa-Grande & Senzala é uma ponte entre o naturalismo dos velhos intérpretes da nossa sociedade, como Sílvio Romero, Euclides da Cunha e mesmo Oliveira Viana, e os pontos de vista mais especificamente sociológicos que se importaria a partir de 1940(...)

Três anos depois aparecia Raízes do Brasil, concebido e escrito de modo completamente diverso.(...) Aos jovens forneceu indicações importantes para compreenderem o sentido de certas posições políticas daquele momento, dominado pela descrença no liberalismo tradicional e a busca de soluções novas; sejas, à direita, no integralismo, seja, à esquerda, no socialismo e no comunismo”.(Pág. Xii)

“No pensamento latino-americano, a reflexão sobre a realidade social foi marcada, desde Sarmiento, pelo senso dos contrastes e mesmo dos contrários – apresentados como condições antagônicas em função das quais se ordena a história dos homens e das instituições(...).

Raízes do Brasil é construído sobre uma admirável metodologia dos contrários, que alarga e aprofunda a velha dicotomia da reflexão latino-americana. Em vários níveis e tipos do real, nós vemos o pensamento do autor se constituir pela exploração de conceitos polares. O esclarecimento não decorre da opção prática ou teórica por um deles(...)”.(Pág. xiv)

“(...)Trabalho e aventura; método e capricho; rural e urbano; burocracia e caudilhismo; norma impessoal e impulso afetivo – são pares que o autor destaca no modo-de-ser ou na estrutura social e política, para analisar e compreender o Brasil e os brasileiros”.(Pág. xv)

“O capítulo I, “Fronteiras da Europa” - que já evidencia o gosto pelo enfoque dinâmico e o senso de complexidade – fala da Ibéria para englobar Espanha e Portugal numa unidade que se desmanchará depois em parte”.(Pág. xv)

“No capítulo seguinte, “Trabalho e Aventura”, surge a tipologia básica do livro, que distingue o trabalhador e o aventureiro, representando duas éticas opostas: uma, busca novas experiências, acomoda-se no provisório e prefere descobrir a consolidar; outra, estima a segurança e o esforço, aceitando as compensações a longo prazo”.(Pág. xv-xvi)

“”Herança Rural”, o terceiro capítulo, parte da deixa relativa à agricultura, analisa a marca da vida rural na formação da sociedade brasileira. Repousando na escravidão, ela entra em crise quando esta declina(...)”.(Pág. xvi)

“A alusão à cidade estabelece a conexão com o capítulo IV, “O Semeador e o Ladrilhador”, que começa pelo estudo da importância da cidade como instrumento de dominação e da circunstância de ter sido fundada neste sentido(...) “Ladrilhador”, o espanhol acentua o caráter da cidade como empresa da razão, contrária à ordem natural, prevendo rigorosamente o plano das que fundou na América, ao modo de um triunfo da linha reta, e que na maioria buscavam as regiões internas(...)”.(Pág. xvii)

“O capítulo sobre “O Homem Cordial” aborda características que nos são próprias, como conseqüência dos traços apontados antes(...).

O “homem cordial” não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva, inclusive suas manifestações externas, não necessariamente sinceras e profundas, que se opõem aos ritualismos da polidez”.(Pág. xvii)

“O capítulo VI, “Novos Tempos”, estuda certas conseqüências dos anteriores na configuração da sociedade brasileira, a partir da vinda da Família Real, que causou o primeiro choque nos velhos padrões coloniais”.(Pág. xviii)

“O capítulo VII, “Nossa Revolução”(...)O seu movimento consiste em sugerir(...) como a dissolução da ordem tradicional ocasiona contradições não resolvidas, que nascem no nível da estrutura social e se manifestam no das instituições e idéias políticas”.(Pág. xix)

“Para ele[SBH], a “nossa revolução” é a fase mais dinâmica(...) do processo de dissolução da velha sociedade agrária, cuja base foi suprimida de uma vez por todas pela Abolição”.(Pág. xx)

“(...)No entanto, parece-lhe que há entre nós condições que permitem a convergência rumo à democracia – como a repulsa pela hierarquia, a relativa ausência dos preconceitos de raça e cor, o próprio advento das formas contemporâneas de vida”.(Pág. xxi)

“Num tempo ainda banhado de indisfarçável saudosismo patriarcalista, sugeria que, do ponto de vista metodológico, o conhecimento do passado deve estar vinculado aos problemas do presente”.(Pág. xxi)

FICHAMENTO I - Antropologia Brasileira

Cunha, Euclides da. “A nossa vendéia” [1897] In: Euclides da Cunha (org. Walnice Nogueira Galvão), Col. Grandes Cientistas Sociais, pp. 76-84, São Paulo, Editora Ática, 1984.

Inicia situando o reduto de Canudos, assim como o tempo: “O relatório apresentado em 1888...sobre o transporte do meteorito de Bendegó...região do extremo norte da Bahia determinada pelo Vale do Ipiranga ou Vaza-Barris, rio em cuja margem se alevanta a povoação que os últimos acontecimentos tornaram histórica - Canudos”.(Pág. 76)

“...de vegetação escassa e deprimida, é, talvez mais do que a horda dos fanatizados sequazes de Antônio Conselheiro, o mais sério inimigo das forças republicanas”.(Pág. 76)

Além de fazer um perfil minucioso da geologia e geografia da região, traça a situação de penúria, condições terríveis de sobrevivência. “...e os galhos que morreram ficam por tal modo secos que em algumas espécies, basta o atrito de um sobre outro para produzir-se o fogo e o incêndio subseqüente de grandes áreas”.(Pág. 77).

“...armazenam-se os últimos recursos para a satisfação da sede e da fome ao viajante retardatário... ”.(Pág. 77)

Paradoxo da natureza: “...da maravilhosa exuberância à completa esterilidade. Este último aspecto, porém, infelizmente, parece predominar”.(Pág. 78)

“O homem e o solo justificam assim de algum modo, sob um ponto de vista geral, a aproximação histórica expressa no título deste artigo. Como na Vendéia o fanatismo religioso domina as suas almas ingênuas e simples é habilmente aproveitado pelos propagandistas do império”.(Pág. 79)

Euclides cita guerras imperialistas das potências européias como se fosse possível traçar paralelo com a luta ‘anti-monarquista’ travada pelo exército republicano brasileiro contra Canudos. Também fica surpreendido pela valentia do cangaceiro: “A Inglaterra enfrentando os zulus e os afgãs, a França em Madagascar e a Itália recentemente, às arrancadas com os abissínios, patenteiam-nos entretanto revezes notáveis de exércitos regulares aguerridos e bravos e subordinados a uma disciplina incoercível, ante os guerrilheiros inexpertos e atrevidos, assaltando-os em tumulto, desordenadamente e desaparecendo, intangíveis quase, num Dédalo impenetrável de emboscadas”.(Pág. 80)

“...hostes adversárias, de uma organização rudimentar, cuja força está na própria inconsistência, cujas vantagens estão na própria inferioridade e que desbaratados hoje, revivem amanhã, dos próprios destroços, como pólipos”.(Pág. 81)

Tese de que no sertão havia mar: “...pela feição caótica e acidental que lhe imprimiu o tumulto das águas nas épocas remotas em que a ação violenta destas, arrastando as camadas de grés que a revestiam, desnudou-a em muitos pontos, aprofundado-se em outros segundo a resistência variável das rochas até aos terrenos mais antigos”.(Pág. 81)

Morte de membros exército republicano por emboscadas: “Caindo inopinadamente numa emboscada, ao atravessarem uma garganta estreita ou um capão de mato, os batalhões sentem a morte rarear-lhes as fileiras e não vêem o inimigo – fulminando-os do recesso das brenhas ou abrigados pelos imensos blocos de granito que dão a certos trechos daquelas paragens uma feição pitoresca e bizarra... ”.(Pág. 82)

“Compreende-se as dificuldades da luta nesse solo impraticável quase”.(Pág. 82)

Jagunço marcado pelo heroísmo: “O jagunço é uma tradução justalinear do iluminado da idade média. O mesmo desprendimento pela vida e a mesma indiferença pela morte, dão-lhe o mesmo heroísmo mórbido e inconsciente de hipnotizado e impulsivo”.(Pág. 82)

Pensamento Político Brasileiro I

A ausência ou impossibilidade do social em Oliveira Viana.

Apresentação

Perante a crítica social que faz Joaquim Nabuco, tocando no problema estruturador da sociedade – o ente que compõe a massa trabalhadora e a ausência ou impossibilidade desse mote em Oliveira Viana. Tentaremos descobrir se isso se exerce em O. Viana como uma análise social negativa do tipo brasileiro. O tema da abolição da escravidão é a espinha dorsal da obra ‘social’ de Joaquim Nabuco. E como ter em mãos a obra de Oliveira Viana para a construção democrática quando o mesmo não toca nesse ponto, de modo desafiador. Assim como esmorece as possibilidades de liberdade dos indivíduos nesse processo – a tutela é algo singular na prática política do Estado Novo, onde Oliveira Viana esteve presente. A explicação da tutela se dá pela descrença no ethos político das massas.

Mesmo que Oliveira Viana tenha um viés diferente do cientificismo que dividiria a nação, como tem Alberto Salles[1], por exemplo, acaba tendo seu discurso castrado de um viés democratizante pelo sentido racialista de sua obra. Não à toa que tirar um sumo democrático a partir da leitura de Oliveira Viana se traduz em algo utópico[2], e não só no sentido da obra do autor, mas no pensamento do próprio intérprete. O que se quer questionar são os usos de Oliveira Viana para uma possível luta democrática.

Esse texto apresentado é segmentado em quatro pequenas partes. Essa presente apresentação do problema; logo a seguir um breve resumo acerca dos dois autores em questão; e a retomada da questão inicial com as considerações finais acerca do tema e da matéria.[3]

Populações Meridionais do Brasil – Oliveira Viana

O escritor fluminense vai resgatar na formação do Brasil a gestação dos principais componentes que dão significado à situação conjuntural brasileira. Qualquer autor que pensa em escrever uma obra de história política ou social, não a faz simplesmente, e Oliveira Viana é justamente o caso de alguém que avalia o passado mas está interessado no seu tempo. O que norteia essa caracterização do povo brasileiro é entender o insolidarismo que permeia as relações sociais no país. Relacionando a dinâmica de condução dos povos formadores do Brasil, em torno dos habitantes do centro-sul do país, e a uma condição social que prescinde de organização pública. Direção objetiva e central. Entender que no paralelo com outros ‘povos’( ou os “grandes povos” como queria Oliveira Viana), temos uma condição natural de atraso, portanto algo muito bem regrado deve ser posto em prática.

É uma grande qualidade interpretar o cenário do país através do entendimento próprio das fontes formadoras do país. Isso calcifica certas considerações claras, às vezes anuviadas pelas importações e estrangeirismos que tomamos – um terrível câncer. Não significa que o autor não faça uso de autores estrangeiros, mas que a matriz de seu objetivo, sobretudo, siga a caracterização original do povo em questão.

Nesses apontamentos gerais da obra de Oliveira Viana podemos relatar algo das teses nela contidas e as fontes bibliográficas da mesma. Esse segundo ponto é mais importante para o tema desse trabalho, naquilo que ajuda a dar coro ao viés negativista sobre a antropologia do povo brasileiro. Quanto às teses do autor[4], destacamos duas, a da ‘função simplificadora do grande domínio rural’ – título do capítulo sete; e a abordagem acerca da ‘função política da coroa’. Ambos os temas estão às voltas com a questão da formação da solidariedade brasileira. E como ela se dá. No primeiro caso, a função simplificadora, condiz com a extensão geográfica dos domínios rurais, onde o povo é encoberto pelo domínio clãnico rural, onde prevalece o particularismo sobre o coletivo; a situação complexa formada dentro da fazenda traduz-se em uma relação impermeável entre o líder local e os seus dependentes frente ao poder externo, como o próprio poder público. O próprio setor comercial, que seria mais citadino, é dependente do rural – e assim podemos inflar a interpretação para o nascimento da industrialização do Brasil, que não veio com confronto entre cidade(urbe industrial) versus campo(agricultura e pecuária). “[...] o grande domínio impede a imersão, nos campos, de uma poderosa burguesia comercial, capaz de contrabalancear a hegemonia natural dos grandes feudatários territoriais[...] Nem classe comercial, nem classe industrial, nem corporações urbanas. Na amplíssima área de latifúndios agrícolas só os grandes senhorios rurais existem”(VIANA: 1952, 117). A relação social é privada, o senhor feudal, esse complexo político, peneira qualquer entrada externa – o que é público traveste-se de outra coisa ao passar pelo domínio do clã rural. Isso tem conseqüência profunda a ponto de mostrar que o Brasil não tem povo! Com uma formação instável, desintegradora e indisciplinada; controlada à força pelo domínio privado, os diversos aglomerados populacionais[5] não consolidam uma posição política própria ou algum viés reivindicatório comum.

No capítulo catorze do livro de Oliveira Viana há o debate sobre a função política do Rei. Mostra o monarca como o grande ator político do Império, aquele capaz de se pôr acima dos potentados locais. O rei tem uma presença coesiva no país, traz consigo a unidade. Diferente disso é o fratricídio – guerras civis, como o período de acefalia política brasileira e maior número de revoltas na história, a Regência(1831 – 1840). Portanto não apenas seria o conciliador do jogo político, mas aquele que poderia vencer os potentados locais, já que os clãs também precisavam de algo central para fazerem seu jogo político em graus maiores que o da fazenda. Oliveira Viana mostra que na disputa, entre a ‘chefia central’ prescindida pelos caudilhos locais e o ‘poder pessoal’ do Rei, o que os localistas queriam era ter um ‘chefe central’ como um articulador do poder central no lugar do Imperador. O problema é que esse chefe não era o Imperador, e governaria sobre outras bases, com ingerência local enfraquecida. Oliveira Viana aponta para uma crença, entre o que é pessoal, do autor, e o que poderíamos chamar de um ‘continuísmo da intelectualidade saquarema’: que o poder central é fonte da formação da solidariedade e da coisa pública no Brasil.

O comentário sobre as fontes que gestaram o olhar do autor sobre os povos brasileiros deve ser compreendido pelo contexto científico da época. Populações Meridionais é escrito em 1920, o paradigma racial ainda tem presença no pensamento social. Por mais que diversos autores reclamem contra ou não mais façam uso de termos ‘racialistas’, como ‘raça’ no sentido biológico; ou até sintam o dilema de seu próprio argumento racialista, como ocorreu com Euclides da Cunha, no final do livro Os Sertões. Mas o “pecado” de Oliveira Viana é tomar por base bibliográfica, em geral, o que havia de mais reacionário no cenário do pensamento social europeu, era a direita intelectual da Europa. Ao fazer uma definição dos tipos brasileiros, os autores de fundo nas argumentações racistas de Viana são: Ratzel, pela antropogeogravia; Gobineau, Lapouge e Ammon, pela antropo-sociologia; Ribot, Lange e James, pela psicofisiologia; Le Bon, Sigheles e Gabriel Tarde, quanto à psicologia coletiva; e ainda as monografias de Le Play, Henri de Touville, Demolins, Poinsard, Deschamps, Roussier e Préville.

A direção da prática política de sua obra não é algo deliberado. Faz parte de nossa interpretação e da própria condição de ator político que o autor exerceu em sua vida, foi elaborador da política do Estado Novo. Oliveira Viana mostra a condução histórica das populações meridionais até o quinto século, e está preocupado, justamente, com o quê fazer pela frente. Populações Meridionais do Brasil será um pano de fundo fundamental para o desdobramento da idéia de autoritarismo Estatal.

A indefinição da prática vianista se dá no questionamento de como pôr sua tese em prática(?). Quando o povo não consegue/pode imprimir nas instituições os seus interesses e a formação da nação. Portanto só o Estado pode fazer isso. Essa chave abre a idéia do “autoritarismo instrumental” segundo Wanderlei Guilherme dos Santos, na idéia de que Oliveira Viana teria desenvolvido um autoritarismo como ponto para executar um Estado Forte, ordenando política e juridicamente a nação(que é incipiente pelo vácuo de sociedade civil). E a partir daí criar, progressivamente uma sociedade democrática. Um dos argumentos contrários a essa teoria de Wanderlei Guilherme dos Santos é a de que Oliveira Viana não acreditaria no elemento formador da sociedade brasileira, como possível para exercer-se numa sociedade democrática.

Joaquim Nabuco – O Abolicionista

A interpretação do Brasil através da crítica social. Joaquim Nabuco faz a explicação do movimento abolicionista para salvar o Brasil, pois constata um câncer que permeia toda a sociedade e destrói as esperanças de modernização e civilização da sociedade político-social do país. A escravidão é a variável transformadora de todas as instituições e setores sociais na qual adentra.

O autor pernambucano, nascido em 1849(no Recife e falece em Whashington(EUA) em 1910), filho de Nabuco de Araújo, chefe do Partido Liberal e é aquele que escancara para a elite política a situação social do país. A linha política segue a do pai, mas a luta de J. Nabuco foi por uma ‘monarquia federativa’, com Taunay e Rebouças formam a tríade que quer democratizar a monarquia. Têm um projeto político para o Brasil, perante a crise do sistema parlamentar(do parlamentarismo aristocrático) no final do segundo Império(sobretudo a partir da década de 1880), que segue pela via das reformas sociais. A mais importante, e motivo do livro O Abolicionista - escrito em 1882 e publicado em 1884 - a abolição da escravidão.

Nabuco recupera o argumento de José Bonifácio[6], e tendo em vista, inclusive, os três pontos de crítica: razão, religião Cristã e honra e brio nacional. Também, o abolicionista pernambucano é influenciado por outras bases filosóficas que o colocam num patamar acima de José Bonifácio – fundamental o pensamento anglo-saxão, sobretudo ao tratar da necessidade de a abolição ser um tema de dimensão social, geral e que o que toca à soberania nacional – o Imperador, com seu poder pessoal poderia ser o responsável pelo processo de abolição. É justamente desse movimento, onde a própria monarquia passa a fazer a abolição, que a morte do Império acontece.

O Abolicionismo de Joaquim Nabuco pode ser considerada como uma grande obra sociológica, talvez uma das primeiras da história brasileira. Contém um objetivo declarado, revela o problema e suas repercussões, os responsáveis e, principalmente, o quê fazer e como fazer – nesse ponto a obra se torna uma espécie de ‘previsão do futuro’. Pois na medida em que a escravidão funcionava como um liame do sistema de governo no Império, selada pelo Monarca, ou seja, o governo de coalizão entre as oposições para manter a constituição vigente(que não revelava a verdade sobre o país – o que sustentava o Brasil era a escravidão). J. Nabuco mostra o absurdo em que um país se coloca ao depender de um elemento que corrói os próprios valores da sociedade e vai de encontro à perspectiva de progresso nacional. Já quanto ao elemento do ‘quê fazer e como fazer’, os primeiros capítulos da obra servem para mostrar que é preciso organização para enfrentar esse grande mal, e que isso fosse feito com a abrangência necessária para enfrentar a mesma amplitude da escravidão no Brasil. Eis a definição de “Abolicionismo”: “Hoje quer-se suprimi-la, emancipando os escravos em massa e resgatando os ingênuos da servidão da lei de 28 de setembro. É este último movimento que se chama abolicionismo, e só este resolve o verdadeiro problema dos escravos, que é a própria liberdade”(NABUCO, 1988 : 26). Essa última palavra da citação revela o tino filosófico do autor, quando busca a liberdade (pelo paradigma anglo-saxão da palavra) e encara sua impossibilidade no Brasil escravista, porque tal impossibilita governo livre, nem ‘democracia verdadeira’.

Nabuco avalia a legislação construída, que deveria significar o processo de abolição, e é uma verdadeira ‘letra morta’ frente aos fatos presentes na vida social do país, como o fato que se antecipa ao direito. Pois no conflito entre igualdade e defesa da propriedade, o segundo sempre foi o motivo dos fazendeiros; o princípio da igualdade deveria ganhar força de lei, e não a lei buscar ser luz para fabricar princípio. Inclusive Nabuco se colocava contrário a qualquer indenização quando houvesse a abolição, pois indenizar significaria aceitar a escravidão, dar legitimidade a ela; de outro modo deveria se proceder para acabar totalmente com o regime: deslegitimando-o. E assim como hoje é impossível fazer a reforma agrária sem alguma modificação no código civil e na constituição federal, Nabuco mostra que a garantia plena do direito de propriedade, somada à concepção privatista e restrita dos fazendeiros(não que a escravidão fosse só das fazendas, ela estava em todos os estratos sociais) sancionava a escravidão.

Diferente de Oliveira Viana, que não é explicito quanto à intenção da instrumentalidade prática de sua obra, Joaquim Nabuco escreve uma espécie de livro-manifesto. Quer explicar o Abolicionismo, sua intenção de tomar conta da realidade social e ser um ponto inicial das reformas sociais. A criação do movimento abolicionista - no início do livro o autor deixa claro que não está criando um partido, senão um movimento amplo – já dispõe duas questões que dão luz à consideração do ideal democrático em Joaquim Nabuco. Primeiro coloca um problema cabal, que estrutura a sociedade – a escravidão, algo referente ao sustentáculo econômico do país; segundo que sinaliza para a inserção das camadas mais inferiorizadas na sociedade, daqueles que mal eram tidos como brasileiros(os escravos).

Há uma avaliação política que pode aproximar o pensamento de Joaquim Nabuco e Oliveira Viana. Quando o primeiro diz defender a monarquia justamente por ser republicano. Avaliando que a melhor forma de exercer a República no Brasil é pela monarquia. Onde movimento republicano brasileiro, contra a monarquia de Dom Pedro II, parecera algo ‘contra-revolucionário’, pelo fato de que o Império estava fazendo as reformas sociais necessárias, mesmo com demasiado gradualismo. É que ao trazer o alarde sobre a repercussão política da escravidão, comenta que o Imperador, o Chefe de Estado com o seu poder concentrado pode trazer para si a soberania da nação, baseado na própria Constituição de 1824[7], e fazer a abolição. Portanto J. Nabuco responsabiliza D. Pedro II, perante o quadro desastroso provocado pela escravidão, pois o Imperador tem o poder político autônomo e forte para levar a cabo o processo de abolição, sem atrelamentos com a aristocracia rural ou comerciantes/traficantes de escravos. Isso significa que tanto Oliveira Viana, como J. Nabuco acreditam na força do poder central(poderíamos pensar no Poder Moderador) como realizadores, a todo custo, das reformas e modernização do país. Ambos possuem outros elementos de averiguação da sociedade brasileira que são próximos: ‘o Brasil não tem povo e não tem classe média’, ‘o poder central é capaz de se sobrepor aos potentados locais’ e ‘a necessidade de colocar a coisa pública sobreposta à privada’. Nesse último ponto Nabuco resolve com sua linha republicana, Oliveira Viana com o autoritarismo estatal. É certo que os projetos são diferentes, Nabuco coloca a política a serviço do projeto social, pois para ele política e direito remetem às questões sociais; Oliveira Viana preocupa-se com a conformação social do povo em um sistema de desenvolvimento nacional, onde era preciso manter uma situação pacífica dos trabalhadores, do povo, para que o Estado pudesse fazer seu papel de direção modernizadora, coordenando as relações sociais entre os entes privados.

Considerações Finais

Algo de grande valia que aprendemos no curso é que certas respostas se dão pela forma como perguntamos as coisas. Então como conceber respostas de uma ópera recheada de informações preciosas, análises mui bem concatenadas, mas que esbarra na situação de maior consideração para o pressuposto democrático: a igualdade fática entre os agentes. Oliveira Viana é muito claro ao dizer que o Brasil não consegue, por sua condição racial, chegar ao padrão europeu. A elitização da própria política de massas é algo que 'pega' no Brasil. O integralismo é um exemplo: foi um dos maiores, senão o maior, movimento de massas da história brasileira; e tinha um líder autoritário, Plínio Salgado, que não media esforços para pôr suas intenções com o princípio de conciliatório e de coesão.

Qual deles(autores) propõe que os grupos alijados do poder possuam poder de mando na sociedade? Pois política é poder, e tem poder quem manda. De certa forma nenhum dos dois. Ambos ainda mantêm uma tutela, Nabuco sobre o escravo liberto, e Oliveira Viana sobre toda a sociedade 'civil'. Apesar de o primeiro buscar a abertura completa de acesso político por vias locais. De todo o modo a apresentação do problema social já supõe a situação de abrir espaço para considerações de inclusão da malta no processo político. Oliveira Viana passa longe disso, sua intenção é fazer algo para a elite política governar melhor o país sem que algum movimento estrague o processo de modernização, e suposta democratização do país.

A grande qualidade de Oliveira Viana foi ter considerado a formação do Brasil sem os comuns estrangeirismos de nossa literatura. Mas parte da adesão da literatura estrangeira é justamente para justificar o pior de sua , que a fonte basilar no entendimento de nossas formas sociais se dá, justamente, pela inferioridade da nossa condição racial.

Quem dá formatação à sociedade!? Esse é um recurso de pensamento sociológico. O qual supõe que há um conjunto de determinações em que o tecido social pode refratar ou repelir quanto a algum elemento injetado, ou mesmo originado no meio social. Acontece que os espontaneísmos devem ser conduzidos, organizados. Não por mera evidência evolutiva da sociedade, mas como o próprio objetivo de dar liame, ser o fio que costura a sociabilidade de um país, como é o caso. A sociedade produz ou é induzida a uma dada formação devido às questões postas para o seu desenvolvimento. É preciso ter em vista qual a situação do Brasil para se ater a uma abertura social ou a um autoritarismo centralizador estatal. Quanto a isso é certo que há algo mútuo entre J. Nabuco e O. Viana: atenção real para os problemas nacionais; contudo há ausência de uma análise menos elitista sobre a formação política do país.

Ainda aqui vale um esquema de relação entre os dois autores que ajuda nessa interpretação crítica das duas obras:

Joaquim Nabuco Oliveira Viana

Futuro(do país): País urbanos. Futuro: país rural.

Liberal. Conservador.

Monarquia-federalista. Presidencialismo-autoritário e centralizador.

Não vinculado à política saquarema, Resgata a política saquarema e dá margens

mas queria fazer uso do PM. de importância para o PM.

Realismo social. Realismo social no sentido da solidariedade, mas

político quanto a sua solução. Não

acredita que o próprio social seja capaz de se

arregimentar e mudar a condição do país.

Variantes de Oliveira Vianna, na obra citada, e de Joaquim Nabuco que são paradigmáticas em suas análises. De um lado a função simplificadora do domínio rural e o insolidarismo; para outro a escravidão permeando todas as categorias sociais.

Por fim, há um tema em discussão hoje que pode ser colado a esse trabalho - a racialização do país. Como os programas de cotas raciais. Por quê? Dividir para quê, ou é para melhor criar a integração entre os brasileiros? É certo que o segundo ponto é falho. É intencional a divisão que será amparada pela conquista de direitos individuais, os coletivos vão em partes, fatiadas entre as cores da sociedade. E como o direito pode amparar algo na sociedade? Se o direito é algo anteposto ao fato da desagregação, miséria e barbárie social!? O direito é um instrumento de poder mantenedor, e não construtor de algo; pode ser arma nas lutas sociais, para 'jogar' contradição, mas não como entre maior com grau de arcabouço receptor das demandas sociais. Eis aí um grande erro da judicialização da política, fenômeno que amplia o burocratismo e o próprio conservadorismo da política. Como se a democracia precisasse ser mais institucionalizada que implementada. E até mesmo sua implementação fosse bastante para suplantar a situação de calamidade social. Aqui vale um problema colocado por Oliveira Viana: o que importa não é a democracia se não há meios de as pessoas exercerem tal sistema de modo efetivo; a visão realista do autor o ajuda a pensar no sintoma da efetividade. Mas, o autor, chega ao limite quando aliena qualquer possibilidade de fato gerador a partir da organização da situação: 'de baixo para cima'. Não “à lá Plínio Salgado”, mantendo a 'cabeça' autoritária, mas com o foco de uma estrutura basilar consciente e presente nas mudanças.


[1] Esse autor chega a mostrar que os paulistas fazem parte da linhagem mais pura da Brasil. A ponto de poderem se separar do resto, pois estariam em situação mais evoluída perante o resto. Que já estava permeado pelo elemento de raças atrasadas, sobretudo o negro e o índio. Ver: SALLES, Alberto. A Pátria Paulista [1887]. Coleção Temas Brasileiros, Vol. 31. Brasília, Ed. UNB. [Terceira Parte – Confronto do Separatismo com a Nacionalidade(p.85 – 119)] e SALLES, Alberto. Sciencia Política [1891]. São Paulo, Teixeira & Irmão – Editores-Proprietários.

[2] Aqui poderíamos fazer um debate com o texto de José Murilo de Carvalho(“A Utopia de Oliveira Viana”, in.: CARVALHO, José M. Pontos e Bordados) que traça o caráter da obra vianista, fazendo uma defesa do valor das análises para mostrar a qualidade do projeto cooperativo, de incorporação e regulação das forças sociais em função de um objetivo comunitário, contra o modernismo liberal com viés utilitarista e individualista.

[3] As bases bibliográficas do trabalho são dois textos lidos para as aulas de Pensamento Político Brasileiro, na UFF, com o professo Renato Lessa.

(1) Viana, Oliveira. Populações meridionais do Brasil. Rio de Janeiro, José Olympio, 1952.

(2) NABUCO, Joaquim. O Abolicionismo. Petrópolis: Ed. Vozes, 1988.

[4] Além do que tange a impossibilidade de trazer ao Brasil produtos históricos de outras configurações sociais, daí que ele vai tentar traçar a própria configuração do Brasil – suas singularidades; ou a tese da impossibilidade de adaptação dos modelos liberais clássicos no Brasil, rematando o seu antiliberalismo.

[5] É interessante que o autor não usa o verbete ‘povos meridionais do Brasil’, senão ‘populações...’.

[6] José Bonifácio de Andrada e Silva já havia comentado sobre a necessidade de abolição. O fez isso em uma Representação à Constituinte de 1823, mas que acabou não tendo vez na mesma, por ter sido fechada antes da apresentação do documento. Ver: José Bonifácio de Andrada e Silva. “Representação à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil sobre a escravatura”. In Obras científicas, políticas e sociais de José Bonifácio de Andrada e Silva, coligidas e reproduzidas por Edgard de Cerqueira Falcão.

[7] O artigo Art. 11. da CB/1824(“Os Representantes da Nação Brazileira são o Imperador, e a Assembléa Geral” TITULO 3º - Dos Poderes, e Representação Nacional) foi muito evocado por J. Nabuco e José do Patrocínio para colocar sob a prerrogativa do Imperador a representatividade da nação, podendo este com tal atributo, realizar a abolição sem o aval da Câmara – que poderia vetar o projeto.

RESENHA: História do Brasil

SALLES, Alberto. A Pátria Paulista [1887]. Coleção Temas Brasileiros, Vol. 31. Brasília, Ed. UNB. [Terceira Parte – Confronto do Separatismo com a Nacionalidade(p.85 – 119)]

SALLES, Alberto. Sciencia Política [1891]. São Paulo, Teixeira & Irmão – Editores-Proprietários.

As datas de publicação dos livros de Alberto Salles já nos dão a idéia acerca do debate político brasileiro em que estava inserido. Entre a queda do regime monárquico e a ascensão da república no Brasil, pelo menos cinco projetos de país circulavam entre a elite política e intelectual da época[1], mas aqui vamos nos ater brevemente sobre a diferença quanto aos republicanos liberais-urbanos(Quintino Bocaiúva, Saldanha Marinho...) e os republicanos paulistas(república oligárquica), essa última de Campos Salles e Alberto Salles, que aliás são irmãos, o primeiro foi Presidente do Brasil de 1898 até 1902 e notabilizou a política de troca de favores entre o Presidente da República e os Governadores Estaduais. Seguida dessa exposição do panorama político e da situação pessoal de Alberto Salles, faremos a exposição das duas obras em destaque.

Os dois partidos republicanos citados acima agiam juntos no movimento político. E irão formar a República Velha juntos, na polarização São Paulo: Republicanos liberais - conservadores e Rio de Janeiro: republicanos liberais – liberais.[2] Diferiam segundo o conteúdo das propostas, idéias, textos, discursos e dentre outras obras produzidas. Havia o detalhe pertinente que os paulistas não apresentavam seu projeto como oligárquico – conservador(claro!), e realmente há um discurso muito bem conduzido por Alberto Salles, por exemplo e como veremos adiante, que corrobora com tal colocação, como se estivesse justificando uma ‘democracia autoritária’ como algo necessário para o povo que temos. Outrossim o que realmente divide os dois partidos é o surgimento das questões sociais. Que é o ponto fundamental que a Coroa teve que lidar, o que gerou sua própria desintegração, com a abolição da escravidão.

Alberto Salles era um intelectual do republicanismo paulista, veio de família rica cafeicultora do interior paulista – da ‘área nova’, Campinas. Estuda nos Estados Unidos e toma contato com Herbert Spencer(que é o antepassado do neoliberalismo), incorpora o cientificismo de Spencer, que é de uma filosofia conservadora e não tem reforma social, diferente de Augusto Comte[3]. Mas o positivismo de Comte também está em Alberto Salles, que acredita que o futuro é a República, isso não como uma opinião, mas um fato histórico-científico dado, e o que emperrasse a chegada nesse regime de governo seria o atraso.

Veremos que na obra Sciencia Política de 1891, há uma clara referência à lei dos três estados de Augusto Comte[4] justamente para justificar o advento da República, e mostrar que a Monarquia seria o atraso. Mas o elemento mais social da obra de Comte, não foi abordado. Isso talvez por ser forte o evolucionismo determinista na obra do intelectual paulista, não só eclipsando formas de um pensamento que não fosse apenas para justificar a superioridade paulista e a necessidade da cisão do Estado com o Brasil, como a ponto de delegar aos negros e índios a impossibilidade da vida democrática por não serem evoluídos, como os paulistas o eram – essa análise de Alberto Salles veio mais da recepção de Spencer do que de Comte, pois o francês colocava que todas as raças têm coisas boas; a lado mais reacionário fica por conta do norte-americano.

Em A Pátria Paulista é um texto que caberia muito bem em um curso de antropologia política, ao debater-se o evolucionismo. O autor faz seu traçado geral apontando para o seguinte objetivo: os elementos científicos fazendo a política e construindo a política, inclusive uma ‘ciência política’(objetiva e instrumental). Essa implicação da ciência nas questões políticas é evidente na apresentação da ‘teoria científica da nacionalidade’: “A teoria científica da nacionalidade, a nosso ver só pode ser estabelecida, em face da própria lei da evolução social e política; fora deste terreno, nada é possível de real e positivo[...].”(SALLES, [1887] : 87). E à luz do evolucionismo desenvolve essa teoria, mostrando a edificação humana por diferentes estágios, como ao mostrar que a cidade e a família representam instituições superiores pois exercem o condicionamento dos agrupamentos humanos ao sedentarismo (já que a fundação da agregação social mostra que o nomadismo é inferior ao trogloditismo – mais desenvolvido por se caracterizar pela vida sedentária do agrupamento). A partir daí explica-se o surgimento da cidade – lugar do esboço de governo na evolução política humana; do povo – e cabendo o exemplo de Roma como grande exemplo evolutivo; da nação e sua relação com o povo – ambos são a unidade social, a terceira fase da evolução política. Ainda na organização política a federação é considerada superior: “[...] o território nacional segmenta-se e dá lugar a novos organismos políticos e administrativos no seio da mesma nação. É o Estado que passa por mais uma fase em sua evolução e chega ao período cantonalista ou federal.” (SALLES, [1887] : 95).

Todo o arcabouço, esqueleto seqüencial de evolução elaborado por Alberto Salles serve para mostrar que a corrente da civilização não pode ser interrompida. Mostra o que é superior na humanidade: a federação, a república, e o que estiver atrás disso é atraso – portanto deve ser eliminado. O dilema é que um elemento substancial para superar um estágio evolutivo, e sendo a vida indissociável do social, um povo evoluído é imprescindível para dar passos adiantes rumo ao progresso. Eis que surge o projeto separatista.

No Brasil só os paulistas são mais evoluídos, segundo Alberto Salles. A província, assim como outras do sul do país, recebeu as ‘melhores’ ocupações, e também seria superior a Minas Gerais pelo fato de “São Paulo [ter] ficado ainda por mais tempo livre do flagelo” (SALLES, [1887] : 104) – lembrando que ele se refere a flagelo ao falar dos negros, e foi forte a presença da escravidão nas minas gerais. Fechando o argumento, se São Paulo, por ter uma linhagem mais pura, é mais evoluído e as leis do fundamento científico dizem que a aspiração separatista é uma verdadeira síntese política necessária. Ele chega a argumentar que certos povos ainda precisam da tutela monárquica, por não serem tão evoluídos, que não é o caso de São Paulo – que deveria, o quanto antes, se desgarrar do Estado central brasileiro[5]. A efetividade da federação dependeria da separação, pois a idéia é que o povo superior equipara-se a um sistema superior; a ponto de delinear para o Brasil uma separação em três partes, divisão etnográfica de Alberto Salles: norte – centro – sul. Com isso dá todos os argumentos favoráveis ao separatismo, mostrando a formação de um país ‘sulista’: separação de São Paulo e, depois, federação com Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Em um futuro, com a evolução do restante do território brasileiro, se poderia pensar numa nova reunião(com federação):

“O que serão os Estados Unidos da América do Sul? A revolução há de ir e quanto mais breve, mais vantajosa e de melhores resultados. E há de vir das províncias. Da corte, país estrangeiro, e, em geral, de gente que vive da monarquia, não irá remédio às províncias e nem reparação aos males a que tem estado sujeitas. Venham à verdade. A autonomia das províncias será a morte do Império. É mister, pois, que das províncias parta o primeiro brado de independência do atual sistema de governo.

Todas ao mesmo tempo não estão preparadas para isso, e portanto iniciem a revolução as que têm possibilidade para ela. Salve-se a quem puder. À proporção que se forem libertando, irão se confederando, e dados os primeiros passos, o desiderato geral não se fará esperar e o Brasil será livre” (SALLES, [1887] : 113)

A obra de 1891 Sciencia Política nos serve para entender as matrizes de pensamento de Alberto Torres. E também como o título do livro é sugestivo para a sua proposta, a de fazer a (s)ciência política, mas para isso precisaria ‘esterilizar’ o ambiente social e dar o Estado para os homens de opinião – publicistas, que saberão seguir e conduzir a sociedade para os píncaros da evolução política.

O positivismo é constante, mas combinado a um racismo militante. Portanto a questão social não é tocada, a não ser quando coloca a importância da educação para desenvolver o espírito científico, eliminar os vícios e o mundo supersticioso das religiões. A educação científica é a condição de possibilidade para acesso às opiniões – mundo político; e de certa forma já representa uma consideração postergatória, que se perpetuou[ou se perpetua] na história do Brasil, ao fazermos um discurso da hipérbole da educação como o futuro do Brasil.

A tese é de haver uma resultante sincrônica entre dois fatores. Um bom povo aliado a uma boa teoria(a que está propondo, trata-se de uma obra prescritiva, tem um objetivo importante e fundador) daria como resultado um ‘bom governo’. A monarquia é um problema porque emperra o progresso.

Alberto Salles comenta sobre a formação do governo democrático. Mas aqui consta um problema de dimensão dessa democracia. Para ser o governo do povo precisamos avaliar que povo e o que é o povo. Primeiro o autor elimina boa parte da população ao apontar biologicamente a inferioridade cerebral dos negros e aborígines; segundo que ele mesmo dá margem para designarmos o seu projeto de república como oligárquica ao colocar que o governo democrático deve ser daqueles que tem opinião, só esses seriam capazes; aos demais caberia entrar no sistema de instrução que seria elaborado pelo Estado para que pudessem, um dia, ter acesso ao envolvimento político. A educação científica tem um significado de acessibilidade, cartão de acesso à democracia.

O que importa é que olhando conjunturalmente para a situação da época a suposição ‘democrática’ de Alberto Salles, não só é oligárquica, como autoritária. Pois aliar o poder político com o cientificismo, um ordenador social por excelência, e em uma sociedade como o Brasil do século XIX/início XX, seria exercer, decididamente, atos dilaceradores na relação Estado-povo.

Além da própria monarquia, Alberto Salles mostra os elementos que viciam, corrompem o bom funcionamento de uma democracia. A religião, as crenças e superstições, são o atraso, não deveriam corromper as mentes do povo; os partidos políticos, que mesmo sendo um ‘mal necessário’ não refletem o interesse público, e funcionam como máquina para aproveitamentos privados; por fim os jornalistas, que é um agrupamento ‘profissional’(que nem o é tanto, já que a formação é muito débil, a maioria nem formada era) que gira cada vez mais em torno dos interesses dos capitalistas, não tendo papel algum na instrução da sociedade, pelo contrário, aprofundam os sofismas inventariados à luz dos interesses privados mais mesquinhos.

Mais uma vez precisamos lembrar que o arcabouço teórico cientificista não é ingênuo quanto à sua vinculação política, da época que o autor escreve e do pós-escrito que pretende ser paradigma. Alberto Salles apresenta um modelo político alicerçado na preponderância do Poder Legislativo, crítica o regime representativo e fazer do Poder Executivo, como ente apenas administrativo – considera que o Estado não deve governar, apenas administrar como sua função positiva na sociedade, porque as pessoas já saberão se governar, elas tem que ser livres e a ordem social ser regrada pelo Estado para pôr em boa condução e condição essa ‘liberdade’.

“A eleição aparece, pois, neste regime como um verdadeiro artifício político, para a constituição da representação nacional, órgão autorizado da opinião. Quer isto dizer que nos governos representativos, qualquer que seja a sua forma, supõe-se sempre que a assembléia nacional, seja qual for o seu nome, congresso, reichstag ou skuptchina, é o órgão legítimo da opinião e como tal cumpre-lhe o dever primordial de ser, perante o governo ou o poder executivo, em quem se encarna a função administrativa, a interprete fiel e sempre vigilante das necessidades mais ou menos urgentes da coletividade social. Se esta teoria é ou não verdadeira cumpre aos entendidos decidir; o que se sabe é que está ainda em vigor e constitui mesmo a base única do sistema representativo. (SALLES, [1891] : 39)

Hoje Alberto Salles possa estar na estante como mais um daqueles teóricos mal-ditos para uns ou positivos, mas exagerado para outros. Uma coisa é certa, a sua base científica é absurda, não se sustenta mais o antropologismo biológico engajado em depreciar outros seres humanos e a divisão racial-biológica da sociedade. O pior é que ele tomou o lado mais reacionário do evolucionismo. A perspectiva evolutiva da sociedade, diferente do que a antropologia hoje prega e que aponta para um relativismo desfigurador da realidade política, tem o seu lado material, mas não é linear e determinista. O grau de abertura democrático que se propaga [formalmente] na sociedade atual deveria ser o mesmo para as aberturas das incertezas e do não apego aos elementos corrosivos de qualquer tipo de solidariedade pretendida pelos indivíduos. A ponto de voltar-se hodiernamente a olhar teóricos como Alberto Salles e pessoas reverem os argumentos cientificistas como verdadeiros. A nós importa superar esse paradigma, e compreender esses importantes escritos do teórico paulista para compreender a formação da República Velha, já que é preciso traçar um paralelo entre as posições levantadas por Salles e executadas pelo outro Salles(Campos, o irmão), bem como durante todo o processo histórico político do país.



[1] Na crise no sistema parlamentar(parlamentarismo aristocrático), no final do Império, pode-se destacar os seguintes projetos: 1) Monarquia Democrática, entre os principais adeptos estavam Joaquim Nabuco, Rebouças e Visconde de Taunay; 2) Monarquia Parlamentarista, tendo como principal pensador Rui Barbosa, que era próximo do projeto seguinte; 3) República Liberal, aqui o principal nome era Quintino Bocaiúva; 4) República Oligárquica/Aristocrática, Campos Salles e Alberto Salles. Tanto (3) como (4) resistiram mais em aceitar a abolição, e a última fez a coalizão para o golpe de 1889 com: 5) República Positivista/Jacobina, dividida entre ortodoxos: -Apostolado Positivista(Miguel Lemos e Teixeira Mendes) e os heterodoxos: Júlio de Castilhos, Demétrio Ribeiro, Benjamin Constant, Barbosa Lima, Lauro da Cunha.

[2] Parte do conteúdo exposto nesse parágrafo foi obtido da leitura de “A Construção da Ordem”, J. M. de Carvalho.

[3] Augusto Comte tem projeto social. Mesmo tendo rompido intelectualmente com Saint-Simon(socialista-utópico), certamente esse contato repercutiu na obra de Augusto Comte para que não tivesse uma visão conservadora. É determinista, porém não estático.

[4] Augusto Comte ensina que o espírito humano passa por três estágios:

1º) O estado teológico ou "fictício" explica os fatos por meio de vontades análogas à nossa (a tempestade, por exemplo, será explicada por um capricho do deus dos ventos, Eolo). Este estado evolui do fetichismo ao politeísmo e ao monoteísmo;

2º) O estado metafísico substitui os deuses por princípios abstratos como "o horror ao vazio", por longo tempo atribuído à natureza. A tempestade, por exemplo, será explicada pela "virtude dinâmica"do ar (²). Este estado é no fundo tão antropomórfico quanto o primeiro ( a natureza tem "horror" do vazio exatamente como a senhora Baronesa tem horror de chá). O homem projeta espontaneamente sua própria psicologia sobre a natureza. A explicação dita teológica ou metafísica é uma explicação ingenuamente psicológica. A explicação metafísica tem para Comte uma importância sobretudo histórica como crítica e negação da explicação teológica precedente. Desse modo, os revolucionários de 1789 são "metafísicos" quando evocam os "direitos" do homem - reivindicação crítica contra os deveres teológicos anteriores, mas sem conteúdo real.// (²) São igualmente metafísicas as tentativas de explicação dos fatos biológicos que partem do "princípio vital", assim como as explicações das condutas humanas que partem da noção de "alma".

3º) O estado positivo é aquele em que o espírito renuncia a procurar os fins últimos e a responder aos últimos "por quês". A noção de causa (transposição abusiva de nossa expeirência interior do querer para a natureza) é por ele substituída pela noção de lei. Contentar-nos-emos em descrever como os fatos se passam, em descobrir as leis (exprimíveis em linguagem matemática) segundo as quais os fenômenos se encadeiam uns nos outros. Tal concepção do saber desemboca diretamente na técnica: o conhecimento das leis positivas da natureza nos permite, com efeito, quando um fenômeno é dado, prever o fenômeno que se seguirá e, eventualmente agindo sobre o primeiro, transformar o segundo. ("Ciência donde previsão, previsão donde ação").

[in: http://www.mundodosfilosofos.com.br/comte.htm, visto em 28/11/2007 23:50]

[5] É muito raro encontrar a palavra ‘Brasil’ em ambos os textos. Quanto ao Nacional e à nacionalidade o que mais encontramos foi ‘São Paulo’ e ‘paulistas’.